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Saúde

Pesquisas do beneficiamento da pele da tilápia para tratamentos e cirurgias recebem sua primeira patente no País

A patente se refere ao método de preparo e conservação da pele do peixe no glicerol, um conservante que esteriliza o material, deixando-o livre de bactérias. Outras três patentes relacionadas à pele de tilápia estão em processo de análise

Ela revolucionou o tratamento de queimaduras na medicina brasileira, em uma técnica inovadora que, iniciada na Universidade Federal do Ceará, hoje ganha cada vez mais destaque em institutos de pesquisa e hospitais de várias partes do mundo. A pele da tilápia é, desde 2015, protagonista de um número crescente de investigações científicas, com abordagens que ampliam suas possibilidades de emprego em usos na veterinária, no tratamento de úlceras, em cirurgias de reconstrução vaginal e na redesignação sexual, entre outros. Agora, após oito anos de avanços, os estudos com esse material acabam de garantir a sua primeira patente no Brasil.

O Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) deferiu, no mês de outubro, a carta-patente que outorga a titularidade do primeiro processo de beneficiamento da pele da tilápia desenvolvido para aplicações médicas. A concessão pública se refere ao método de preparo e conservação da pele do peixe no glicerol, um conservante que esteriliza o material, deixando-o livre de bactérias.

A patente foi solicitada ao INPI em 2015, ano em que se iniciaram os estudos na fase pré-clínica pelos pesquisadores da UFC e pelo médico Edmar Maciel Lima Júnior, do Instituto Dr. José Frota. As primeiras descobertas foram alcançadas no Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), sob coordenação do Prof. Odorico de Moraes. A fase pré-clínica durou 18 meses na Universidade, contando com 11 etapas, entre as quais a esterilização da pele, os estudos toxicológico e microbiológico e os testes em animais.

Em humanos, os testes tiveram início em 2016, após a realização de uma técnica final de esterilização por irradiação, executada no Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares (IPEN), em São Paulo. “Por segurança, além do glicerol, irradiamos a pele a 30 kilogray, que é a dosagem de radiação, garantindo a eliminação de possíveis bactérias e vírus”, explica Edmar Maciel, que é o coordenador-geral das pesquisas dos produtos desenvolvidos com a pele da tilápia.

Quando solicitada a patente, as pesquisas com a pele da tilápia trabalhavam em sua aplicação apenas no tratamento de queimaduras de segundo grau e em feridas agudas ou crônicas. Até então, a medicina brasileira não dispunha de nenhuma cobertura cutânea temporária de origem animal para o tratamento dessas lesões – à diferença, por exemplo, dos Estados Unidos, onde a pele de porco é utilizada para essa finalidade e em larga escala. A importação do produto norte-americano nunca se mostrou comercialmente viável no Brasil, e a pele da tilápia, então, surgiu como uma alternativa revolucionária para preencher essa lacuna.

O Dr. Edmar Maciel é o coordenador-geral das pesquisas dos produtos desenvolvidos com a pele da tilápia (Foto: Jr. Panela)
Imagem: Foto do Dr. Edmar Maciel sentado em um consultório médico

Isso porque os estudos empreendidos por Edmar Maciel – juntamente com a equipe de Histologia da Profª Ana Paula Negreiros, da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem (FFOE) da UFC – descobriram a existência do colágeno tipo I na pele da tilápia, uma proteína que, ao interagir com feridas ou queimaduras, promove a aceleração dos processos de cicatrização e de reparação da matriz dérmica. A derme do peixe adere ao leito da lesão, evitando a perda de líquidos, promovendo uma barreira à invasão bacteriana e proporcionando o alívio da dor.

O invento possui titularidade compartilhada: 32% em nome do médico Edmar Maciel, 25% para a UFC, 25% para a Enel Distribuição Ceará e 18% para o médico Marcelo José Borges de Miranda. Há ainda um trâmite para inclusão de dois outros nomes como inventores do método: Carlos Roberto Koscky Paier, professor do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da UFC, e Felipe Augusto Rocha Rodrigues, egresso do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia, também da UFC. Os dois pesquisadores desenvolveram o processo de detoxificação para a pele da tilápia no glicerol, que foi feito para garantir a ausência de toxicidade no ser humano. A patente desse produto também foi concedida nos Estados Unidos em 2021.

NOVOS PRODUTOS E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA

São, hoje, 337 pesquisadores envolvidos nos estudos de desenvolvimento de novos produtos com a pele da tilápia, espalhados por nove países, como Colômbia, Argentina, Guatemala, Estados Unidos, Alemanha e Holanda. Toda essa rede de investigação, que soma 87 projetos de pesquisa, está sob a coordenação de Edmar Maciel, que tem gabinete de pesquisa no NPDM da UFC. Além da pele no glicerol, foram desenvolvidas a pele liofilizada, a matriz acelular e a extração de colágeno, produtos para os quais foram solicitadas patentes no Brasil e no exterior.

Os estudos com esses produtos – já realizados, inclusive, em parceria com instituições como a NASA, a FIOCRUZ e o BUTANTAN – geraram, até o momento, 35 publicações em revistas científicas nacionais e internacionais. Além disso, angariaram ao todo 24 premiações, todas em primeiro lugar, incluindo o Prêmio Eurofarma de Inovação, considerado o “Oscar” da medicina brasileira.

O beneficiamento da pele da tilápia para fins de pesquisa é feito, hoje, exclusivamente no NPDM da UFC (e com a etapa de esterilização por irradiação no IPEN, em São Paulo). “A UFC tem um papel muito importante nessas pesquisas. Todos os produtos são desenvolvidos laboratorialmente na Universidade, pelo grupo do NPDM e sob a minha coordenação. Os estudos em animais são feitos no Biotério da UFC, que tem qualidade internacional, assim como vários outros projetos. E quando precisamos de melhoramento ou desenvolvimento de novos produtos, usamos a expertise do NPDM, sob a coordenação do Prof. Odorico de Moraes”, destaca Edmar Maciel.

Entretanto, para dar uma maior escala aos avanços desses estudos, está sendo elaborada pela UFC uma chamada pública para a transferência de tecnologia. Através dela, a empresa vencedora receberá todo esse know-how e será responsável por realizar o beneficiamento da pele para fins comerciais.

NOVOS PATENTEAMENTOS

O mesmo procedimento de beneficiamento da pele da tilápia que acaba de receber carta-patente do INPI já foi patenteado nos Estados Unidos, informa Edmar Maciel. “É um procedimento que fazemos em cada país, para evitar que a tecnologia seja copiada”, explica. Além do preparo e da conservação da pele do peixe no glicerol, outras três técnicas já estão em processo de patenteamento no instituto brasileiro e em órgãos no exterior.

O mesmo procedimento de beneficiamento da pele da tilápia que acaba de receber carta-patente do INPI já teve sua patente concedida nos Estados Unidos (Foto: Viktor Braga/UFC)
Imagem: duas pessoas trabalham no beneficiamento da pele de tilápia sobre uma mesa

Uma delas é o beneficiamento pela chamada liofilização, isto é, pela desidratação da pele da tilápia, que é o procedimento mais usado atualmente pelos pesquisadores. Nesse pedido de patente, a UFC possui 50% da titularidade. A outra metade está dividida entre Edmar Maciel (43%) e Marcelo Borges (7%).

A matriz dérmica é a terceira patente em análise, desenvolvida para uso interno no organismo. Ela vem sendo aplicada apenas em animais, nas mais diversas áreas da medicina, com excelentes resultados em cirurgias em córneas e na duroplastia, que é um procedimento neurocirúrgico.

A última patente em espera é a da extração do colágeno da pele do peixe. Os estudos trabalham para que essa proteína seja usada como complemento alimentar, como hidratante e como pomada e spray para feridas e queimaduras. Os dois últimos produtos têm titularidade dividida entre a UFC (50%) e o médico Edmar Maciel (50%).

A TILÁPIA

A tilápia-do-nilo, da qual é retirada a pele para os referidos estudos, é o peixe mais consumido no Brasil. Originalmente de água doce (por mais que recentemente tenha se adaptado ao mar brasileiro), o peixe é de fácil reprodução e existe em grandes quantidades no Brasil, especialmente no Nordeste.

Apesar do grande consumo, a pele da tilápia costuma ser descartada, e apenas 1% dela é utilizada no artesanato. Esse fato garante a viabilidade econômica do uso desse material. Além disso, animais aquáticos disseminam menos doenças que os terrestres, o que torna a pele da tilápia clinicamente mais segura.

Fonte: Edmar Maciel, coordenador-geral das pesquisas com a pele de tilápia – e-mail: edmarmaciel@gmail.com

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Sérgio de Sousa 14 de novembro de 2023

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