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Saúde

Estudo da UFC confirma importância da amamentação na primeira hora de vida do bebê

A pesquisa, feita em parceria com a Harvard, é uma das primeiras do mundo a mostrar que o aleitamento materno nos primeiros 60 minutos após o nascimento tem impacto no desenvolvimento infantil

O desenvolvimento infantil é um universo complexo que envolve muitos aspectos. Dos cuidados ainda na gestação aos fatores neonatais, cada pequeno detalhe pode influenciar no processo de aquisição de habilidades e capacidades das crianças. Nesse sentido, o artigo “Maternal and neonatal factors associated with child development in Ceará, Brazil: a population-based study” (“Fatores maternos e neonatais associados ao desenvolvimento infantil no Ceará, Brasil: um estudo de base populacional”), publicado na BMC Pediatrics e produzido numa parceria entre a Universidade Federal do Ceará, a Escola de Saúde Pública de Harvard e o Centro Universitário Christus (UNICHRISTUS), concluiu que a amamentação na primeira hora de vida repercute no desenvolvimento de longo prazo.

De acordo com o professor Hermano Rocha, da Faculdade de Medicina da UFC e um dos autores da publicação, a avaliação desse fator é relativamente nova na literatura internacional. “Nosso trabalho vem se somar a outros que mostram ser essa exposição importante para o desenvolvimento infantil. Em escala populacional, essa é uma das primeiras evidências do mundo”, afirma.

Segundo o pesquisador, muitas vezes a equipe separa a criança da mãe para fazer uma série de exames e depois de um tempo é que o recém-nascido pode ser amamentado. Além disso, nem sempre a mãe pode amamentar por estar sob efeito de sedação após um procedimento cirúrgico.

O simples fato de haver a conexão olho no olho da mãe com a criança, nessa primeira hora, cria um vínculo emocional que garante um desenvolvimento infantil mais adequado, explica Rocha. Além disso, o professor afirma que há estudos sobre a presença de anticorpos no leite da mãe específicos para o bebê, somente nesses primeiros 60 minutos após o nascimento, que funcionam como um reforço na imunidade do recém-nascido parecido com uma vacina. Até hoje, de acordo com Rocha, não se sabe como replicá-los artificialmente, mas se acredita que são capazes de diminuir as chances de doenças crônicas no adulto.

De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), no mundo, menos de 50% das crianças têm a chance de ser amamentadas na primeira hora. O dado também foi encontrado na Pesquisa de Saúde Materno-Infantil do Ceará (PESMIC), de 2017, uma das poucas do mundo que avalia o desenvolvimento infantil em termos populacionais, permitindo a orientação de políticas públicas na área.

Outro achado importante do estudo foi a verificação do chamado efeito catch up em bebês com baixo peso ao nascer. Através de uma análise de interação, percebeu-se que a criança nascida com baixo peso ou prematura, depois de algum tempo – principalmente se estimulada de forma correta –, acaba conseguindo compensar e se tornar “equivalente” à que nasceu com peso adequado, fenômeno demonstrado em outras pesquisas, principalmente nos países desenvolvidos.

QUANDO UMA CRIANÇA TEM O DESENVOLVIMENTO ATRASADO?

Para realizar o trabalho, os pesquisadores analisaram dados da PESMIC para avaliar a associação entre gravidez e fatores neonatais com escores de desenvolvimento infantil em um estudo transversal. Ao todo, foram observadas 3.566 crianças em cinco domínios (comunicação, coordenação motora ampla, coordenação motora fina, resolução de problemas e habilidades pessoais e sociais) de um dos questionários mais utilizados no mundo para rastreio populacional de problemas no desenvolvimento infantil: o Ages and Stages Questionnaire (ASQ-BR).

Crianças de costas em brinquedoteca da UFC
Ao todo, foram avaliadas 3.566 crianças em cinco domínios: comunicação, coordenação motora ampla, coordenação motora fina, resolução de problemas e habilidades pessoais e sociais (Foto: Viktor Braga/UFC)

“Então, por exemplo, a coordenação motora ampla verifica se a criança consegue fazer alguns movimentos amplos, corporais, se ela consegue jogar uma bola, enquanto a coordenação motora fina examina movimentos mais sutis, como passar um fio por uma argola e outros mais sofisticados. Já as habilidades pessoais e sociais, a comunicação e a resolução de problemas verificam se a criança interage, se interage de forma adequada”, detalha o pesquisador.

Crianças com déficit em pelo menos um desses domínios são consideradas, segundo o médico, atrasadas no desenvolvimento infantil. Isso porque, ainda que a criança vá bem em comunicação, se ela tem um problema na coordenação motora, existe um aspecto no desenvolvimento infantil que pode ser melhorado.

Outro motivo para justificar a importância de separar a avaliação do desenvolvimento infantil em domínios é o fato de que a partir da identificação da relação de fatores neonatais com algum domínio específico é possível supor quais são as conexões cerebrais e as partes do desenvolvimento cerebral daquela criança que não funcionaram bem.

“Se, por exemplo, identificamos que o baixo peso ao nascer afeta pontos específicos, e esses pontos têm tempos de desenvolvimento diferentes na criança, nós podemos tentar trabalhar especificamente esses domínios ou saber o que vai acontecer com crianças de baixo peso ao nascer, no futuro, para podermos nos preparar para isso, considerando que o baixo peso ao nascer é cada vez mais frequente”, ilustra.

FATORES DA GRAVIDEZ

De acordo com Hermano Rocha, a suplementação de ácido fólico em mulheres que têm a pretensão de engravidar já era conhecida, porque existem associações da deficiência dessa vitamina com defeitos importantes do tubo neural das crianças. O trabalho, entretanto, percebeu algo a mais: não só transtornos ou doenças graves são causados pela falta dessa suplementação, mas também deficiências sutis do desenvolvimento infantil. Dessa maneira, o pesquisador recomenda reforçar a suplementação, alertando sobre a necessidade de observar e estimular as crianças que não foram suplementadas para o caso de virem a apresentar algum déficit de desenvolvimento infantil.

Já a necessidade de realizar intervenções e estimulação em crianças que tiveram permanência prolongada em unidades de terapia intensiva neonatal ou incubadora, foram reanimadas, usaram antibióticos ou tiveram infecções após o nascimento ainda é, conforme o médico, objeto de estudo. Esse será o próximo passo do grupo, que também está se preparando para fazer a pesquisa de forma longitudinal: ou seja, buscar as mesmas crianças vistas em 2017 e ver como estão hoje.

“Isso felizmente já está em curso. Nós recebemos financiamento e provavelmente devemos executar o projeto neste ano, o que vai nos permitir ver, por exemplo, se crianças expostas ao baixo peso ao nascer e com algum atraso no desenvolvimento tiveram problemas na vida escolar”, comemora o professor, que é bolsista de pós-doutorado da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP). O financiamento da FIOCRUZ ao grupo de pesquisa Epidemiologia do Semiárido, liderado também pelo Prof. Luciano Correia, vai possibilitar a realização dessa nova parte do trabalho.

Mãos de menina segurando blocos de montar
Na pesquisa, a avaliação do desenvolvimento infantil é separada em domínios. A partir da identificação da relação de fatores neonatais com algum domínio específico, é possível supor quais as conexões cerebrais e as partes do desenvolvimento cerebral daquela criança que não funcionaram bem (Foto: Dejan Krsmanovic/Flickr)

Também são autores do artigo o Prof. Christopher Sudfeld, da Escola de Saúde Pública de Harvard; o Prof. Álvaro Leite, do Departamento de Saúde Materno-Infantil da UFC; os docentes Luciano Correia, Márcia Machado e Sabrina Rocha, do Departamento de Saúde Comunitária da UFC; e Jocileide Campos e Anamaria Silva, professoras do Centro Universitário Christus (UNICHRISTUS).

CREDIBILIDADE

Entre os fatores que comprovam a confiabilidade do trabalho, o médico cita a comparação do percentual de crianças com baixo peso ao nascer encontrado na PESMIC com o dado do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) do Brasil. “Nós identificamos em cerca de 10% da nossa amostra a prevalência de baixo peso ao nascer e comparamos com os dados do Ceará de todas as crianças em 2017, divulgados pelo Ministério da Saúde bem depois da realização da nossa pesquisa. Vimos que o número foi praticamente idêntico ao encontrado, analisando-se o dado individual de todas as crianças nascidas naquele ano”, revela.

De acordo com o professor, um dos pontos mais fortes da Pesquisa de Saúde Materno-Infantil do Ceará é a amostragem, segundo a qual cada mãe e cada criança de até seis anos do Estado teve exatamente a mesma chance de ter participado da pesquisa. “Esse é um princípio básico para assegurar que a amostra reflita a população de onde ela saiu”, explica. Para chegar a essa amostra, os pesquisadores sortearam setores censitários do IBGE e, a partir deles, escolheram de forma aleatória o ponto geográfico por onde começar o estudo.

PESQUISA PIONEIRA

A PESMIC, financiada pela FUNCAP, vem acontecendo desde 1987 pela Universidade Federal do Ceará. É uma pesquisa pioneira que ajudou na redução da morbimortalidade infantil no Brasil e no mundo através, por exemplo, da recomendação do soro caseiro contra a diarreia, que matava muitas crianças naquela época, uma das diversas ações geradas pelo estudo, que já foi premiado internacionalmente. Seguindo esse exemplo, o UNICEF passou a estimular o chamado MICS (Multiple Indicator Cluster Surveys), muito semelhante à PESMIC, que hoje é realizado por mais de 100 países no mundo. O Brasil, infelizmente, não é um deles.

A mais recente edição da pesquisa é uma das poucas da América Latina que examinou a relação entre o nascimento, os fatores de cuidado neonatal e os resultados do desenvolvimento de crianças pequenas.

Fonte: Hermano Rocha, professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará – e-mail: hermano@ufc.br

Síria Mapurunga 18 de maio de 2021

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