Após um derramamento, o petróleo raramente viaja a mais de 300 quilômetros da fonte, porém, um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará junto a instituições internacionais acaba de comprovar, pela primeira vez no mundo, um caso que quebra esse padrão. O óleo espalhado na costa do Nordeste brasileiro em 2019 foi capaz de transcorrer cerca de 8.500 quilômetros, chegando até a Flórida, Estados Unidos, em aproximadamente 240 dias. O que tornou isso possível foram os resíduos plásticos marinhos, gerando um novo alerta para a governança global dos oceanos.
Uma grande quantidade de garrafas de vidro e plástico com tampa, parcialmente ou totalmente cobertas por resíduos pretos, chegou ao litoral de Palm Beach do final de maio até setembro de 2020. A cidade é o ponto mais oriental da península da Flórida, e sua praia é considerada uma das mais poluídas por detritos no sudeste dos Estados Unidos. Isso porque se localiza a cerca de cinco quilômetros do fluxo da corrente do Golfo do México, e recebe ventos que sopram do mar trazendo diversos detritos.
A chegada dos referidos resíduos se destacou, contudo, por surgir de forma diária, por vários meses, e em uma quantidade fora do comum. Além disso, as garrafas, quando possuíam rótulos legíveis, traziam inscrições em português, espanhol e inglês. A Friends of Palm Beach (FOPB), uma organização sem fins lucrativos dedicada à limpeza do litoral de Palm Beach, divulgou nas redes sociais a chegada inusual dos detritos, despertando o olhar de pesquisadores.

Além deste lixo, fardos de borracha também apareceram na costa de Palm Beach em 2020, ganhando divulgação nos veículos de imprensa locais. Os itens eram semelhantes aos encontrados na costa do Nordeste brasileiro no ano anterior. A coincidência dos eventos motivou pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC), em parceria com instituições internacionais, a verificarem se os acontecimentos estariam conectados.
Eles comprovaram a hipótese e publicaram, no início deste mês de janeiro, um artigo na revista Environmental Science & Technology revelando ao mundo que o lixo marinho, especialmente o plástico, pode ser responsável por uma contaminação transfronteiriça de petróleo.
Nos casos de derramamento, o óleo não chega a grandes distâncias por conta de dois fatores. O principal deles é o intemperismo, isto é, por processos naturais como evaporação, dissolução, degradação fotoquímica e biodegradação. A outra razão são as medidas de resposta a esses eventos, a exemplo da aplicação de dispersantes. Contudo, envolvido em detritos como o plástico, o óleo consegue superar esses impedimentos.
“O lixo, especialmente garrafas, tende a se dispersar nos oceanos pela superfície e subsuperfície, de forma semelhante ao óleo e a seus derivados. Dessa forma, o lixo marinho entra em contato com o óleo e passa a seguir a mesma trajetória, sendo transportado pela circulação oceânica”, explica o professor Rivelino Cavalcante, do Labomar, um dos autores da pesquisa.

Se o óleo encontra esses resíduos, ele pode ficar mais tempo em superfície e ser transportado pelas correntes por longas distâncias, criando um chamado “efeito aditivo de contaminantes”. “Trata-se da interação entre poluição por óleo e resíduos plásticos marinhos, na qual o plástico atua como vetor, ampliando a persistência, o alcance espacial e o impacto ambiental do óleo. Essa interação cria um co-contaminante com comportamento distinto daquele observado quando óleo e plástico são considerados isoladamente”, esclarece Cavalcante.
PREOCUPAÇÃO GLOBAL
O achado, portanto, desperta uma nova preocupação ambiental, pois há cada vez mais detritos nos oceanos, destaca o professor Carlos Teixeira, do Labomar, que também assina o artigo. “A região da Margem Equatorial Brasileira, que se estende do Rio Grande do Norte ao Oiapoque, é uma nova fronteira de exploração de petróleo. Este estudo mostra que, em contato com resíduos, óleo proveniente de possíveis derramamentos pode atingir distâncias muito maiores”, adverte Teixeira.
Os riscos ambientais, acrescenta o professor Rivelino Cavalcante, são múltiplos, pois o plástico oleado é um contaminante potencial e perigoso. “A ingestão de materiais plásticos por animais marinhos, por si só, já representa uma ameaça significativa à saúde desses organismos. Somado a isso, quando os animais se encontram oleados, o risco é ainda maior, uma vez que diversos hidrocarbonetos presentes no petróleo são tóxicos, incluindo compostos com potencial carcinogênico”, aponta.
Com a chegada desses materiais a praias, a contaminação fica exposta a outros animais e inclusive aos seres humanos.
O caso traz um alerta sobre os impactos transfronteiriços da poluição marinha para a governança internacional dos oceanos. O artigo evidencia que este se trata de um problema de escala global, afetando inclusive países com legislações ambientais rigorosas.

Os pesquisadores defendem que os esforços de enfrentamento devem ser coletivos, compartilhados por todas as nações que margeiam os cinco oceanos do planeta.
COMO FOI FEITA A COMPROVAÇÃO
O professor Rivelino Cavalcante explica que, em cenários como o descrito, a principal forma de verificar se o transporte dos materiais ocorria do sul para o norte do Atlântico seria por meio daquilo que os pesquisadores chamam de traçador químico, e que, neste caso, tratava-se do próprio petróleo.
“Como resultado da parceria entre a UFC e o Instituto Oceanográfico Woods Hole (WHOI, EUA), já dispúnhamos do perfil químico do óleo, conhecido como fingerprint, ou seja, a ‘impressão digital’ dos óleos que atingiram a costa brasileira. Isso permitiu uma comparação direta entre os eventos, fornecendo uma evidência robusta e inequívoca, baseada na similaridade dos fingerprints dos óleos analisados”, esclarece.
Para confirmar a conexão entre os eventos, os pesquisadores fizeram análises químicas no material oleoso coletado em Palm Beach, observando os chamados hidrocarbonetos de petróleo, compostos que apresentam características químicas específicas que permitem sua utilização como fingerprint do óleo. Esses biomarcadores apresentam alta resistência à degradação ambiental e são comumente utilizados na análise de acidentes envolvendo derramamentos de petróleo ou de seus derivados, mesmo após longos períodos de exposição ao ambiente.
Essa “impressão digital” reflete as condições geológicas e a região do globo terrestre onde o petróleo foi formado, tornando possível comparar as diferentes amostras: as encontradas no Brasil, em 2019, e nos Estados Unidos, em 2020. O resultado das análises comprovou as similaridades entre ambas as amostras.
Junto a isso, os cientistas trabalharam com modelos numéricos, que são um conjunto de equações resolvidas em computadores que fornecem a velocidade e a direção do movimento dos oceanos. “Com base nessas velocidades, introduzimos partículas virtuais que simulam o comportamento do óleo nos oceanos e seu transporte. Com isso, sabemos o destino do óleo lançado em um ponto dos oceanos em determinado tempo”, informa o professor Carlos Teixeira.
Esta modelagem, que simulou as trajetórias de 10 mil partículas virtuais, mostrou que a origem do óleo poderia ser realmente a região oceânica ao largo dos estados do Nordeste e Norte do Brasil. Além disso, ela mostrou que os períodos de passagem do óleo pelo Brasil e a chegada na Flórida coincidiam.

Além de confirmar que o óleo encontrado em Palm Spring era o mesmo daquele que chegou às praias do Nordeste brasileiro, a pesquisa trouxe a informação que esse transporte do Brasil para os Estados Unidos se deu em cerca de 240 dias. As contribuições inéditas são consideradas um avanço significativo, ao integrar processos físicos e assinaturas químicas, defende Teixeira.
DERRAMAMENTO DE ÓLEO NO BRASIL
O estudo realizado é mais um dos esforços desenvolvidos por pesquisadores da UFC no enfrentamento dessa problemática, associada a um dos maiores derramamentos de óleo já registrados na América do Sul e em regiões tropicais. Já foram mais de 20 artigos publicados pela UFC sobre o derramamento de óleo no Brasil em 2019, que atingiu mais de três mil quilômetros do litoral brasileiro.
As autoridades brasileiras suspeitaram que quatro petroleiros fossem os potenciais culpados. Pesquisadores do Labomar levantaram a hipótese de que o petróleo e os fardos de borracha provinham do SS Rio Grande, um navio de abastecimento alemão afundado pela Marinha dos EUA em janeiro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. A embarcação se encontra a mil quilômetros da costa brasileira, a uma profundidade de 5.762 metros. A origem do petróleo, contudo, permanece um mistério.
O artigo recém-publicado contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e de instituições internacionais, como a Fundação Nacional de Ciência dos EUA, o Instituto Oceanográfico Woods Hole, o Conselho de Pesquisa em Ciências Naturais e Engenharia do Canadá e o Friends of Palm Beach.
Fontes: Rivelino Cavalcante, professor do Labomar-UFC – E-mail: rivelino@ufc.br / e Carlos Teixeira, professor do Labomar-UFC – E-mail: carlos.teixeira@ufc.br.
USE NOSSAS MATÉRIAS
A reprodução dos textos da Agência UFC é permitida, com atribuição. Caso o texto seja reproduzido na íntegra, ele deve ser assinado com o nome do repórter seguido do identificador “da Agência UFC”. Caso o texto passe por cortes ou ajustes no processo de edição, deve-se publicar apenas “da Agência UFC”, ou forma semelhante, de acordo com os padrões adotados pelo veículo.
Saiba mais sobre como usar as matérias da Agência UFC