Foto de um cacho de bananas
O Ceará é o sétimo maior produtor de banana do Brasil, mas, em termos de rendimento, o Estado cai para 17º posição nacional (Foto: Pixabay)
Ciências

Pesquisadores da UFC desenvolvem software para elevar produtividade da cultura da banana

O CND-Banana é fruto de pesquisa realizada em parceria com instituições nacionais e uma canadense e já está disponível de forma virtual e gratuita

A cultura da banana representa um importante mercado para o Ceará. Somente em 2019, o Estado produziu 406,3 mil toneladas da fruta, quantidade que o coloca na posição de sétimo maior produtor brasileiro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar do expressivo volume, o rendimento ainda é baixo em terras cearenses, sendo o 17º no ranking nacional. Entretanto, um software desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, em parceria com outras instituições brasileiras e uma canadense, pode ajudar a solucionar esse problema.

Conforme informações do IBGE, o Ceará possuía uma área colhida de 35 mil hectares em 2019 (dado mais recente divulgado), com um rendimento de 11,6 toneladas por hectare. Para se ter uma ideia, o vizinho Rio Grande do Norte, que contava, no mesmo ano, com apenas 7,7 mil hectares de área colhida ‒ quatro vezes e meia a menos que o Ceará ‒ garantiu 28,4 toneladas por hectare, alcançando assim a liderança brasileira em termos de rendimento.

O software elaborado por meio de um banco de dados obtido no Sítio Barreiras Fruticultura LTDA, em Missão Velha, propõe-se a melhorar as condições de cultivo da banana no Ceará. Trata-se do CND (Diagnose da Composição Nutricional, do inglês Compositional Nutrient Diagnosis), uma metodologia que utiliza modernas ferramentas matemáticas e estatísticas para definir o melhor balanço de nutrientes de uma determinada cultura agrícola.

Já disponível para utilização gratuita e on-line, o CND-Banana determina o conjunto de plantas mais produtivas e identifica qual o balanço nutricional adequado para essa elevada produção. “O software é destinado a todos os produtores de banana, a fim de que, com base em suas próprias análises, eles possam definir, através do programa, qual a melhor adubação para sua propriedade”, explica o professor visitante sênior da UFC, William Natale, que participou do projeto. Ele é docente permanente dos programas de Pós-Graduação em Agronomia (Fitotecnia e Ciência do Solo).

Foto de agricultor cuidando da plantação de banana
O software já está sendo utilizado no Sítio Barreiras Fruticultura LTDA, em Missão Velha, empresa que fez parceria com a UFC para a realização da pesquisa (Foto: Sítio Barreiras Fruticultura LTDA)

Segundo Natale, apesar da importância que a cultura da banana tem para o Ceará, até agora as recomendações de adubação vêm sendo realizadas com base exclusivamente na análise de solo, o que não dá conta de informar como se é possível alcançar o melhor rendimento para a produção da cultura. O robusto banco de dados que permitiu a criação do software considerou análises de solo, análises foliares e produção de frutos.

“Com a análise foliar, e o uso do balanço nutricional, ‘pergunta-se’ à planta o que está faltando ou sobrando em termos nutricionais, para que a cultura possa expressar todo seu potencial genético em relação à produção e à qualidade da fruta”, esclarece o professor.

A metodologia do CND já vem sendo utilizada em diversas culturas agrícolas no Brasil, a exemplo da goiaba, da manga, da uva, do arroz e da soja. No Ceará, a banana é a primeira contemplada com o software. O CND-Banana foi desenvolvido para terras cearenses, contudo, regiões que tenham condições similares de clima e solo também podem empregá-lo, informa o Prof. Natale, até que um programa semelhante seja desenvolvido para cada região.

Ele salienta que o CND-Banana é dinâmico. Ou seja, assim que novas análises de solo, folhas e a contabilização da produção forem sendo obtidos ao longo do tempo, esses novos dados podem ser incorporados ao software, atualizando-o.

PATENTE SOLICITADA

Para se chegar à elaboração do software, foram realizados estudos com dados coletados de 2010 a 2018, cedidos pelo Sítio Barreiras Fruticultura LTDA, empresa que, além do fornecimento das informações, ofereceu a dois alunos de pós-doutorado da UFC bolsas de estudo em determinado período do processo de desenvolvimento da pesquisa. Desta forma, foi consolidada uma parceria público-privada para a pesquisa.

Após concluído o software, foi solicitada a patente ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). “Pela nossa experiência com outros softwares, ela deverá ser
liberada em alguns meses. Independentemente disso, o programa já está sendo usado para melhorar o manejo da adubação dos pomares”, destaca o Prof. Natale, informando que o CND-Banana está em utilização no Sítio Barreiras, um dos parceiros do projeto.

Foto de uma bananeira
No Ceará, a adubação das plantações de banana vêm sendo realizadas com base exclusivamente na análise de solo. O software traz, além desta, análises foliares e de produção de frutos

Estão envolvidos na pesquisa, além do Prof. William Natale, o Prof. Márcio Cleber de Medeiros Corrêa, do Centro de Ciências Agrárias (CCA-UFC), e os pós-doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Agronomia/Fitotecnia da UFC Antonio João de Lima Neto e José Aridiano Lima de Deus. Participam também, por outras instituições, o Prof. Danilo Eduardo Rozane (Universidade Estadual Paulista – UNESP), o Prof. Eduardo Maciel Haitzmann dos Santos (Universidade Federal do Paraná – UFPR), o Prof. Léon Etienne Parent (Universidade de Laval – Canadá) e o engenheiro agrônomo Vagner Rodrigues Filho (Sítio Barreiras).

CULTURA DA BANANA NO BRASIL

A banana é uma das frutas mais consumidas do mundo, e o Brasil tem uma importância expressiva nesse mercado. Segundo a última atualização da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com dados de 2018, o Brasil era o quarto maior produtor da fruta no planeta e o quinto em área cultivada.

Por outro lado, da mesma forma que a produtividade da cultura da banana no Ceará é baixa em relação à do País, o Brasil também apresenta resultados modestos no comparativo com o mundo. Conforme o Prof. William Natale, a produtividade brasileira está estagnada em torno de 15 toneladas por hectare nos últimos 50 anos, enquanto que, de 1968 a 2018, o mundo viu sua produtividade saltar de 11,7 para 20,2 toneladas. “Sem considerar a produtividade de países como Indonésia e Guatemala, com média nacional acima de 50 t/ha, conforme dados da FAO”, acrescenta o professor.

De acordo com ele, diversos estudos científicos têm buscado explicar as razões do mau desempenho nacional. “O manejo inadequado da adubação e a falta do monitoramento do estado nutricional dos bananais brasileiros são os principais fatores limitantes à produtividade, carecendo de ferramentas para o seu aprimoramento e que possibilitem melhores tomadas de decisão”, considera o professor.

PUBLICAÇÕES INTERNACIONAIS

A pesquisa para a elaboração do software foi divulgada, através de artigos científicos, em três conceituados periódicos internacionais. O artigo “Balance design for robust foliar nutrient diagnosis of ‘Prata’ banana” (“Desenho de equilíbrio para diagnóstico de nutrientes foliares robustos de banana-prata”, em tradução livre), foi veiculado na revista Nature Scientific Reports.

O artigo “Multivariate selection and classification of mathematical models to estimate dry matter partitioning in the fertigated Prata banana in the Northeast Brazil” (“Seleção multivariada e classificação de modelos matemáticos para estimativa da partição de matéria seca na banana-prata fertirrigada no Nordeste do Brasil”, em tradução livre) foi publicado em dos mais respeitados periódicos internacionais na área de Ciências Agrárias, o Field Crops Research. Por fim, o artigo “Nutrient Diagnosis of Fertigated Prata- and Cavendish- Banana (Musa spp.) at Plot-Scale” (“Diagnóstico de nutrientes de banana-prata e cavendish fertirrigadas (Musa spp.) em escala de lote”) foi publicado na Plants.

Fonte: Prof. William Natale, docente permanente dos programas de Pós-Graduação em Agronomia da UFC – e-mail: natale@ufc.br