Dezenas de mandiocas empilhadas umas sobre as outras (Foto: Divulgação)
O Ceará é o terceiro maior produtor de mandioca do Nordeste, atrás de Bahia e Maranhão; o glossário foi produzido com os termos utilizados em toda a cadeia produtiva (Foto: Divulgação)
Sociedade e Cultura

A riqueza linguística e cultural da mandioca

Pesquisador elabora Glossário regional da mandiocultura, com mais de 1.500 palavras, a partir de entrevistas com agricultores do noroeste cearense

A mandioca está na boca do povo. E não é só por conta da diversidade de produtos derivados dessa planta – uma das bases da alimentação do nordestino –, mas também pelo vocabulário relacionado à mandiocultura. Essa prática, que vai muito além da produção agrícola, foi objeto de estudo do linguista Mário Junglas-Muniz, o qual se dedicou a registrar os termos utilizados por agricultores em sua tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará, sob orientação da Profª Maria Elias Soares.

Um dos resultados da pesquisa é o Glossário regional da mandiocultura, com mais de 1.500 palavras, elaborado a partir de entrevistas e questionários com cerca de 40 agricultores. A versão inicial do Glossário está no apêndice da tese, a partir da página 168. A ideia é disponibilizar futuramente esse material em uma plataforma on-line para consulta. No momento, o pesquisador busca financiamento para colocar no ar o glossário eletrônico, em processo de construção, porque, segundo o autor, novos termos estão continuamente sendo elencados.

Confira abaixo a matéria também em áudio, produzida em parceria com a rádio Universitária FM:

A pesquisa de campo foi feita na mesorregião noroeste cearense, especificamente em Cruz (onde o autor nasceu e reside atualmente), Bela Cruz, Jijoca de Jericoacoara e Acaraú. “São quatro cidades abaixo do rio Acaraú com mais ou menos o mesmo foco linguístico. A maior parte dos moradores é de agricultores descendentes de agricultores do antigo município de Acaraú”, explica.

De acordo com o linguista, uma das contribuições do estudo é salvaguardar palavras dessa atividade especializada tradicional que ainda possui poucos registros escritos, por advir da modalidade oral da língua, e passa, no momento, por uma importante transformação com a incorporação de novas tecnologias em sua produção.

Trecho do glossário contendo a expressão "dar de comer", com informações como a palavra em si, a pronúncia, formação, construção em frases, sentido, e inclui até mesmo o contexto no qual o termo é utilizado (Imagem: Reprodução do glossário)
O glossário contém informações como a palavra em si, a pronúncia, formação, construção em frases, sentido, e inclui até mesmo o contexto no qual o termo é utilizado (Imagem: Reprodução do glossário)

“Hoje, nós quase não temos casas de farinha como antigamente, quando o trabalho era todo comunitário. As atuais fábricas de farinha substituíram o rodo manual por uma pá mecânica”, descreve. Com o progressivo desaparecimento daquela realidade, pode haver um esquecimento de termos relacionados ao modo de trabalho arcaico. “O glossário vem dar uma resposta e trazer uma contribuição social para que não haja perda dessa variedade linguística, que é tão rica na região”, defende.

VARIEDADES LINGUÍSTICAS

O glossário contém informações que vão desde a palavra em si, passando pela pronúncia, formação, construção em frases, sentido, e inclui até mesmo o contexto no qual o termo é utilizado. “Eu optei por fazer isso para resgatar também as variações que existem na região. Era muito comum existir o ‘v’ pronunciado ‘rê’ ou ‘bê’: tem a bassoura, a rassoura e a vassoura; o carralo e o cavalo”, descreve. Esse tipo de registro é diferente de outras publicações, como os dicionários populares, nos quais existe apenas uma coleta.

“Há um boom desses trabalhos, como os dicionários de ‘cearês’, que não são resultado de uma pesquisa científica. Acho que é válido, mas muitas vezes você não denota de onde vem aquela variedade, como surgiu ou se pronuncia. Meu trabalho tentou preencher essas lacunas”, ressalta.

Uma das principais preocupações do autor foi dividir o universo da mandioca e sua produção em cinco domínios: plantação, transporte, beneficiamento, comercialização e culinária. Na fase da plantação, o pesquisador identificou a maior quantidade de termos (928), seguida pelo beneficiamento (452), transporte (255), culinária (200) e comercialização (155), sendo que alguns termos pertencem a mais de um campo. O critério adotado para o registro foi o uso, ou seja, o aparecimento dos termos nas entrevistas.

O pesquisador Mário Muniz, em uma biblioteca (Foto: Arlindo Barreto/UFC)
O glossário é oriundo da tese de doutorado de Mário Muniz, no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFC, sob orientação da Profª Maria Elias Soares (Foto: Arlindo Barreto/UFC)

Outro ponto que merece ser destacado é a identificação de palavras de origem indígena (143) e africana (23) nos discursos dos trabalhadores rurais. No primeiro caso, aparecem beiju (tipo de bolo feito de massa crua de mandioca, coco e sal e preparado no forno da casa de farinha), jirau (estrutura feita de varas e paus fora da casa de farinha para secar os blocos de goma retirados do tanque) e urupema (peneira), por exemplo. De origem africana, surgem cabaça (fruto arredondado da cabaceira que, depois de maduro, era aberto e limpo, servindo de utensílios domésticos nas casas de farinha de antigamente), farofa e quenga.

As entrevistas com os agricultores foram tanto pessoais, com mais tempo de duração, como grupais, realizadas no campo. “Nós utilizamos uma metodologia grupal até porque as pessoas que estavam trabalhando não tinham tempo para parar”, explica.

Algumas frases que aparecem na definição das palavras surgiram como resposta a perguntas de dois tipos, formuladas por Junglas-Muniz: semasiológicas e onomasiológicas. “No primeiro caso, seria ‘O que é o rodo?’ E ele vai te explicar os possíveis conceitos”. Já no segundo caso, seria: ‘qual o nome daquele instrumento que a gente mexe a farinha’, e aí o agricultor responde: ‘é o rodo!’”, detalha o pesquisador.

“São termos usados por pessoas que não têm exatamente uma educação formal, mas são capazes de dar um significado específico àquela palavra conforme usada no contexto onde elas trabalham ou comercializam”

A Profª Maria Elias Soares, orientadora da pesquisa, destaca a importância de registrar o vocabulário utilizado por pessoas simples em uma área específica, como a da mandiocultura. “São termos usados por pessoas que não têm exatamente uma educação formal, mas são capazes de dar um significado específico àquela palavra conforme usada no contexto onde elas trabalham ou comercializam”, ressalta. De acordo com ela, esse conhecimento pode ter interesse prático para as associações e os setores da área da economia, que precisam de uma sistematização desse tipo, como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (EMATERCE) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).

A Professora Maria Elias Soares, durante uma cerimônia de colação de grau (Foto: Viktor Braga/UFC)
A Profª Maria Elias Soares, orientadora da pesquisa, diz que um dos pontos importantes da pesquisa é registrar o vocabulário utilizado por pessoas simples em uma área específica, como a da mandiocultura (Foto: Viktor Braga/UFC)

O autor teve como uma de suas referências para a realização do glossário a tese de doutorado de Elias Rodrigues, também defendida no Programa de Pós-Graduação em Linguística da UFC. Em sua pesquisa, Rodrigues havia se dedicado a criar um glossário da terminologia da farinha de mandioca na Amazônia paraense. Entre as principais diferenças das pesquisas, Junglas-Muniz indica que, ao contrário de lá, onde os locais de produção da farinha estão próximos da plantação, aqui as casas de farinha e as residências dos moradores são geminadas.

“Elas são instituições dentro da casa do agricultor, geralmente aquele agricultor que tem mais dinheiro, o mais importante, que reúne a família toda para fazer a farinhada”, explica Junglas-Muniz, acrescentando que há, também, a questão etnolinguística e cultural, como as rodas de conversa e os namoros que surgiam durante as reuniões para produção de farinha. “Tudo isso conta muito para a povoação, a economia, a própria culinária e comercialização”, emenda.

SAIBA MAIS

A mandioca, também conhecida como macaxeira e aipim, é uma planta da família das Euphorbiaceae, tal qual cantada pelo alagoano Djavan em sua música “Farinha”. A mandiocultura é responsável por boa parte da produção agrícola, da renda e da fonte de alimentação das populações rurais que sobrevivem dessa atividade laboral no Ceará, Estado que é o terceiro maior produtor no Nordeste. Como uma das principais culturas de subsistência, é praticada por pequenos produtores e constitui um alimento básico da população, sobretudo para as comunidades de baixa renda. É considerada o pão do Brasil, País que já foi o maior produtor mundial dessa raiz, mas hoje fica atrás da Nigéria e da Tailândia. Devido a sua rusticidade (resistente à seca e a terras de baixa fertilidade), adapta-se, praticamente, a todas as condições de solo e clima.

Pero Vaz de Caminha, o escrivão do descobrimento, registrou sobre os índios que “Eles não comem senão doutra coisa a não ser dum inhame que brota da terra”, referindo-se à mandioca, em carta endereçada ao rei de Portugal, em 1500. O pão dos trópicos, título conferido a ela pelo padre José de Anchieta, já foi enaltecido pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo em seu livro História da alimentação no Brasil, o qual dedicou um capítulo somente à “Rainha do Brasil”.

Além de Djavan, artistas como Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga, Juraildes da Cruz, Xangai, o grupo Mastruz com Leite e diversos cantadores, repentistas e cordelistas mostraram a importância da mandioca para a cultura e a subsistência do brasileiro.

Fontes: Mário Junglas-Muniz, doutor em Linguística pela UFC – e-mail: mjunglasm@gmail.com; Maria Elias Soares, do Programa de Pós-Graduação em Linguística – e-mail: mariaelias.ufc@gmail.com

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