Momento de intensas transformações na vida da mulher, a gravidez traz consigo um turbilhão de emoções. Face ao desafio de gestar uma vida, são comuns a insegurança com as mudanças no corpo, as dúvidas acerca dos futuros cuidados com a criança, e a ansiedade em relação à nova etapa. Com o avançar dos meses, um sentimento em especial sombreia o pensamento das futuras mamães: o medo sobre a hora do parto, comumente relacionado às ideias de dor, tensão e até mesmo permeado por relatos de violência obstétrica.
Visando disponibilizar informações às gestantes e proporcionar uma visão mais positiva e confiante sobre a experiência de dar à luz, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) da Universidade Federal do Ceará desenvolveram o aplicativo de celular “Guiando o Nascimento”, que oferece um cenário de simulação imersiva para visita às estruturas de quarto pré-parto, parto e pós-parto (PPP) presentes em unidades de saúde. Além do ambiente, o app explica processos realizados e etapas até o nascimento do bebê.
O estudo foi idealizado pelo enfermeiro Roger Rodrigues da Silva, atualmente aluno de doutorado no PPGENF, sob orientação da professora Mônica Oriá, docente do Departamento de Enfermagem e coordenadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Simulação Clínica e Realidade Virtual em Enfermagem e Saúde (INCT Screens). A pesquisa para concepção e desenvolvimento do app teve duração de três anos e contou com financiamento da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
SIMULAÇÃO IMERSIVA
Para a criação do “Guiando o Nascimento”, uma premissa foi a definição de um formato que não demandasse conhecimento prévio das usuárias, bem como dispensasse o uso de óculos de realidade virtual. A ideia era que fosse algo acessível por meio da tela de dispositivos móveis, e de navegação intuitiva. Por esse motivo, a tecnologia mobile health de simulação imersiva de realidade foi a opção escolhida. “Pensamos em desenvolver o cenário para smartphones e tablets, considerando que grande parcela da população tem acesso a estes dispositivos. Acreditamos que o app possa ser utilizado em ambientes de salas de espera de unidades de saúde, antes das consultas de pré-natal, por exemplo”, explica Roger Silva.
Após visitas a quartos de pré-parto, parto e pós-parto em maternidades, a equipe desenvolveu o cenário por meio de um software que permite a modelagem tridimensional do cenário e avatares. Em seguida, foram realizadas as tomadas das gravações da enfermeira-guia em um estúdio adaptado com o fundo chroma-key e acústica adequada. O desenvolvimento e programação da lógica de interação foi feita a partir de um sistema de desenvolvimento de aplicações interativas que permite a manipulação do vídeo a partir da visão 360º.
“Estudamos extensivamente e adaptamos referências sobre simulação e criação de vídeos educativos para possibilitar o desenvolvimento adequado da nossa proposta, gerando um percurso metodológico inédito. Trabalhar com profissionais de outra área também foi uma dificuldade que conseguimos superar. Foi necessário aprender a `traduzir` o que queríamos para uma linguagem mais técnica, mais próxima aos desenvolvedores”, detalha o pesquisador.
TECNOLOGIA EM SAÚDE
Ao acessar o “Guiando o Nascimento”, a gestante é recebida pela imagem da enfermeira Camila, personagem interpretada pela estudante Julia Luna, que funciona como uma espécie de guia ao longo da navegação. O menu do app se divide em quatro abas principais: Acolhimento, Quarto do Parto, Saiba Mais e Despedida. Não há sequência pré-estabelecida de acesso ao conteúdo, podendo a grávida iniciar a sua visita por qualquer dos itens.
No menu “Quarto do Parto”, a gestante pode escolher percorrer o ambiente por uma visão 360º ou compreender as funcionalidades dos equipamentos disponíveis, como Bola Suíça, Escada de Ling, Cavalinho Obstétrico, Banqueta de Parto e Cama PPP; usados no apoio ao parto. O aplicativo disponibiliza ainda abas com informações sobre fases do trabalho de parto, parto humanizado e quais profissionais acompanham a parturiente durante esse momento.

Ressalta o pesquisador Roger Silva que o aplicativo não visa substituir a visita guiada às maternidades físicas, considerando que cada instituição deve seguir o padrão estabelecido pelo Ministério da Saúde. “Buscamos oferecer uma alternativa para as gestantes não contempladas com a visita prévia”, afirma.
HUMANIZAÇÃO PARA O PARTO
Desde dezembro de 2007, está em vigor a Lei Federal nº 11.634, que dispõe sobre o direito da gestante de conhecer a maternidade na qual será realizado o seu parto. A ideia é evitar a chamada “peregrinação” por vagas de leitos ou atendimento obstétrico no Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar de conquistado há quase duas décadas, esse direito ainda não é realidade para muitas mulheres, em parte por desconhecimento ou por dificuldades em visitar previamente a maternidade.
Atentos a essa problemática e em consonância com os princípios de humanização para o parto, os pesquisadores da UFC pensaram na solução digital como estratégia para vencer essas distâncias. “Acreditamos que um app que mostre como é estruturado um centro de parto normal e o que acontece durante ele possa estimular e conscientizar as mulheres a optarem por esse tipo de parto. A tecnologia que viabiliza essa visita guiada poderá servir de retaguarda para mulheres que não realizaram a visita ao ambiente físico”, ressalta o pós-graduando.
Segundo a equipe, a ideia é que em breve o “Guiando o Nascimento” esteja disponível para download nas principais plataformas de aplicativos, após etapa de revisão e ajustes prevista para ser concluída ainda no primeiro semestre deste ano. “Estamos estudando uma prévia, se estiver tudo ok, vamos implementar e difundir o app”, salienta Roger Silva.
VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA
Estudos apontam que, no Brasil, uma em cada quatro gestantes sofre violência obstétrica. Caracterizada por abusos físicos e psicológicos, como procedimentos não consentidos, recusa na administração de analgésicos, xingamentos e humilhações e violação de privacidade, esse tipo de violência contra a mulher é subestimado. Atualmente não existe legislação para punir essa forma de violência, que ocorre com mais frequência em grupos sociais como adolescentes, mulheres com vulnerabilidade socioeconômica e minorias étnico-raciais.

Pontua Roger Silva que combater a perpetuação dessas práticas por meio da informação é um dos objetivos do “Guiando o Nascimento”. “O estímulo e maturação de conhecimentos são essenciais para que a gestante tenha consciência de seus direitos e saiba reconhecer possíveis comportamentos abusivos durante sua estada na maternidade. Os conteúdos disponibilizados no app visam oferecer justamente essa educação e conscientização, apresentando às mulheres aquilo que é esperado que aconteça durante um trabalho de parto técnica e eticamente bem conduzido, sem violência, destacando que cada experiência de parto é única e intransferível”, preconiza.
Fonte: Roger Silva, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGENF) – e-mail: roger95silva@gmail.com
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