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Saúde

Pesquisa feita em Fortaleza durante pandemia de covid-19 reforça relação entre sono e desenvolvimento infantil

Estudo da UFC acompanhou crianças nascidas em Fortaleza no primeiro lockdown e identificou que as que dormiram mais apresentaram melhores desempenhos em indicadores como cognição, habilidades motoras e aspectos socioemocionais

Dormir é bom e faz bem, principalmente na primeira infância. Um estudo que acompanha crianças nascidas em Fortaleza reforça essa evidência com dados brasileiros. As crianças que dormiram mais horas à noite apresentam melhores desempenhos em indicadores importantes do desenvolvimento infantil, como cognição, habilidades motoras e aspectos socioemocionais. Em contrapartida, aquelas que passaram mais tempo acordadas ou tiveram o sono fragmentado durante a madrugada tendem a ter piores resultados. 

A pesquisa foi realizada com 278 crianças com idades de 1 ano e meio a 2 anos, período em que ocorre o Desenvolvimento na Primeira Infância (DPI). A maioria delas (84,53%) dormiu mais de 11 horas por dia. Em média, foram 12 horas e 14 minutos (sendo 9 horas e 23 minutos à noite e o restante durante o dia). No entanto, aquelas que dormiram menos apresentaram piores indicadores de desenvolvimento. Cada hora de vigília noturna representou uma diminuição de 0,12 ponto no domínio cognitivo, 0,11 no domínio socioemocional e 0,09 no domínio motor. 

Fotografia de criança utilizando um tablet à noite
A diminuição do tempo de sono pode comprometer o desenvolvimento da memória, a regulação emocional e habilidades motoras (Foto: Magnific)

Considerando todos esses aspectos, o impacto negativo no desenvolvimento geral infantil é de 0,11 ponto por hora em claro. Os resultados estão descritos no artigo Effect of sleep duration on child development in Fortaleza, que oferece evidências produzidas no contexto brasileiro, durante a pandemia de covid-19. O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Universidade de São Paulo (USP) e a Harvard T. H. Chan School of Public Health, nos Estados Unidos.

Os efeitos do chamado “sono curto”, que ocorre quando a criança dorme menos do que o necessário para sua faixa de idade, aparecem no cotidiano. Segundo Márcia Maria Tavares Machado, professora do Departamento de Saúde Comunitária da UFC e uma das autoras da pesquisa, “crianças que dormem em curtos períodos durante o dia podem apresentar irritabilidade, choro frequente e baixa colaboração na interação com as pessoas ao seu redor”. 

O sono funciona como um regulador silencioso que atravessa diversas dimensões do desenvolvimento na primeira infância. Quando é insatisfatório, afeta a cognição, dificultando a consolidação da memória e o processo de aprendizagem. No domínio motor, são comprometidos a aquisição e o aprimoramento de habilidades físicas necessárias a atividades cotidianas como correr e manipular objetos. Já o impacto no domínio socioemocional prejudica a regulação emocional e as interações sociais.

ATIVIDADE CEREBRAL É INTENSA ENQUANTO A CRIANÇA DORME

Isso ocorre porque o sono não é um intervalo passivo na rotina da criança; ao contrário, trata-se de um momento de intensa atividade cerebral, especialmente na fase REM (Rapid Eye Movement ou Movimento Rápido dos Olhos). Entre múltiplas tarefas exercidas pelo cérebro durante o sono estão processos essenciais de remodelação, adaptação e reorganização dos neurônios – a chamada plasticidade neural, que facilita novas conexões e potencializa o desenvolvimento infantil.

Um segundo processo importante que ocorre enquanto as crianças dormem é o fortalecimento das conexões recentes entre os neurônios, conhecidas como sinapses, o que favorece a consolidação de tarefas, atividades e experiências que elas viveram ao longo do dia. “O sono adequado permite que esses processos biológicos ocorram sem interferências, garantindo a arquitetura cerebral necessária para o aprendizado”, explica Shamyr Sulyvan Castro, professor do Departamento de Fisioterapia da UFC, também um dos autores da pesquisa.

Fotografia do professor Shamyr Castro (Foto: Guilherme Silva/UFC)
O sono adequado permite que processos biológicos ocorram sem interferências, garantindo a arquitetura cerebral necessária para o aprendizado, conforme explica Shamyr Sulyvan Castro (Foto: Guilherme Silva/UFC)

Segundo ele, há um aumento considerável desses e de outros eventos no cérebro infantil nessa fase que segue até os 3 anos de idade. Portanto, quando o sono noturno da criança é insuficiente ou fragmentado, sobretudo nessa faixa etária, essa complexa engrenagem biológica pode falhar, prejudicando o aprendizado e o aperfeiçoamento de várias habilidades desenvolvidas em atividades rotineiras.

Por outro lado, períodos mais longos e regulares de sono noturno estiveram diretamente associados a melhores escores em cognição, linguagem, habilidades motoras e aspectos socioemocionais. Shamyr Castro destaca que “crianças com boa qualidade de sono tendem a interagir melhor e participar de brincadeiras, essenciais para o desenvolvimento cognitivo”.

PANDEMIA DE COVID-19 PODE TER INFLUENCIADO PADRÃO DE SONO

O trabalho faz parte do “Iracema-Covid”, projeto mais amplo realizado em parceria com universidades nacionais e internacionais e coordenado pela professora Márcia Machado. O projeto acompanha 351 crianças nascidas em hospitais públicos de Fortaleza em julho e agosto de 2020 – durante o primeiro lockdown da pandemia de covid-19 – e suas respectivas mães. A cada seis meses são coletados novos dados.

Nesse recorte, os pesquisadores buscaram avaliar como a pandemia afetou o comportamento das crianças em seus primeiros anos de vida. Foram feitas duas coletas, 18 e 24 meses após o parto, com 278 duplas de mãe e filho. Para os pesquisadores, os dados indicam que o sono dos pequenos pode ter sofrido influência do isolamento social e das mudanças na rotina familiar, bem como da sobrecarga de mães e cuidadores, expostos a desafios como a deterioração da saúde mental e a redução na busca por serviços de saúde.

Entre os domínios avaliados, a linguagem apresentou evolução mais lenta em comparação com outros aspectos do desenvolvimento. O contexto – marcado por distanciamento físico, menos contato presencial e redução significativa de interações olho no olho – provavelmente limitou experiências fundamentais para a ampliação do vocabulário e a emissão das primeiras palavras. Márcia Machado explica que o desenvolvimento da linguagem não depende apenas do funcionamento cerebral, mas também da exposição a estímulos adequados nos primeiros anos de vida. Nesse sentido, fatores como interação social e estímulo familiar podem desempenhar papel decisivo.

Fotografia da professora Márcia Machado (Foto: Guilherme Silva/UFC)
Márcia Machado destaca que o desenvolvimento da linguagem não depende apenas do funcionamento cerebral, mas também da exposição a estímulos adequados nos primeiros anos de vida (Foto: Guilherme Silva/UFC)

DÉFICIT DE SONO TEM EFEITOS A LONGO PRAZO

Além de comprometer a memória, regulação emocional e cognição, a insuficiência crônica de sono para a população em geral pode estar associada, a longo prazo, a problemas cardiovasculares, metabólicos e de saúde mental. No caso de crianças, com a exposição precoce, os efeitos podem ser ainda mais intensos.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que o sono passe a ser tratado como parte essencial do cuidado infantil, incorporado às consultas pediátricas e às ações de atenção primária à saúde, com orientações sobre rotina, higiene do sono e redução de estímulos noturnos. Afinal, um sono adequado desde os primeiros anos de vida pode ser uma das estratégias mais simples e eficazes na promoção do desenvolvimento saudável, aprendizagem e bem-estar emocional na infância.

EQUIPE E FINANCIAMENTO

Além de Shamyr Castro e Márcia Machado, também participam da pesquisa pela UFC o professor Luciano Lima Correia, do Departamento de Saúde Comunitária, e os médicos Pedro Lucas Grangeiro de Sá Barreto Lima e Sophia Costa Vasconcelos, estudantes do curso de Medicina à época da pesquisa. Completam a equipe as professoras Simone Farias-Antúnez, do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Elisa Rachel Pisani Altafim, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP), e Marcia Castro, da Harvard TH Chan School of Public Health.

Este projeto é financiado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal; Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e UFC. Shamyr Sulyvan Castro recebeu apoio do David Rockefeller Center for Latin American Studies (DRCLAS), da Universidade de Harvard.

Fontes: Márcia Maria Tavares Machado, professora do Departamento de Saúde Comunitária da UFC – e-mail: marciamachado@ufc.br / Shamyr Sulyvan Castro, professor do Departamento de Fisioterapia da UFC – e-mail: castross@ufc.br

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Mônica Lucas 5 de agosto de 2026

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