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Pesquisa da UFC transforma estudos sobre gênero e tecnologia em guia prático com orientações para designers de produtos digitais

Para evitar que o design de plataformas digitais reproduzam desigualdades que existem foram das telas, pesquisadoras da UFC elaboraram um guia para orientar a criação de interfaces mais inclusivas

Um aplicativo no seu smartphone pode parecer somente um conjunto de telas, botões e comandos. Mas por trás de cada escolha aparentemente técnica houve decisões sobre necessidades priorizadas e comportamentos esperados do usuário. Se essas definições partem de concepções limitadas sobre gênero, o resultado pode ser uma tecnologia que, em vez de apenas prestar um serviço, reproduz na palma da sua mão as desigualdades do mundo fora das telas.

Pense em aplicativos que têm mulheres como público-alvo e são automaticamente desenvolvidos em tons de rosa e com uma linguagem infantilizada. Outro exemplo são os programas de acompanhamento do ciclo menstrual que são projetados supondo que toda usuária seja uma mulher cisgênero, heterossexual e interessada em engravidar ou evitar uma gravidez. Ou ainda as assistentes virtuais com nomes e vozes femininas, reforçando a associação entre mulheres e subserviência.

Então como evitar que preconceitos e estereótipos desse tipo sejam incorporados aos sistemas digitais que usamos cotidianamente? Um grupo de pesquisadoras da Universidade Federal do Ceará (UFC) transformou princípios teóricos da chamada Interação Humano-Computador Feminista, ou IHC Feminista, em orientações que poderão ser usadas por quem efetivamente desenvolve tecnologias. O resultado é um conjunto de 15 diretrizes reunidas em um guia destinado a designers, desenvolvedores e outros profissionais da área.

O Guia de Diretrizes para Design de Interface com Foco em IHC Feminista (também disponível em inglês) é resultado da pesquisa desenvolvida pelas estudantes Geslâne Rodrigues de Sena, Kellen Raizy Noronha Monteiro e Maria Isabele de Oliveira Freires, com orientação das professoras Valéria Maria da Silva Pinheiro e Anna Beatriz Marques. Todas são dos cursos de Engenharia de Software ou de Ciência da Computação do Campus da UFC em Russas e integrantes do projeto de extensão Meninas Digitais do Vale, dedicado a fortalecer a participação de mulheres na área da tecnologia.

Fotografia em close de mãos de uma mulher usando um smartphone (Foto: Magnific)
Por trás de escolhas aparentemente técnicas, preconceitos e estereótipos podem estar incorporados em sistemas digitais que usamos cotidianamente (Foto: Magnific)

Em um teste anonimizado com 13 profissionais da área, o Guia foi avaliado positivamente por todos pela organização, utilidade e facilidade de uso. Eles também foram favoráveis ao uso do material para a criação de interfaces mais acessíveis e inclusivas e afirmaram que o utilizariam em projetos. Dos participantes, nenhum tinha conhecimento aprofundado sobre IHC feminista ou a havia aplicado em projetos e apenas um já tinha lido ou estudado sobre o assunto.

A experiência do designer Henrique de Souza, um dos participantes da avaliação, exemplifica esse desconhecimento. Ele conta que, antes do contato com o Guia, suas preocupações com acessibilidade estavam concentradas principalmente em pessoas com deficiência ou dificuldades de compreensão. A avaliação ampliou esse olhar para questões relacionadas a gênero e o levou a conhecer outras metodologias da área. Para ele, incorporar essa reflexão à rotina profissional é “necessário e viável”, embora o desconhecimento sobre o tema ainda possa dificultar sua adoção pelas equipes.

DA TEORIA À PRÁTICA PROFISSIONAL

Interação Humano-Computador (IHC) é o campo que estuda as interações entre sistemas computacionais e seres humanos. A perspectiva feminista dessa área começou a ser teorizada, em 2010, pela pesquisadora taiwanesa-americana Shaowen Bardzell, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, ao levar em consideração não apenas eficácia, desempenho ou facilidade de uso, mas principalmente as relações de poder na criação e utilização das tecnologias.

Ilustração de smarthope e interfaces de aplicativos em cor de rosa (Arte: Magnific)
A perspectiva feminista nos estudos de IHC levam em consideração não apenas eficácia, desempenho ou facilidade de uso, mas principalmente as relações de poder na criação e utilização das tecnologias (Arte: Magnific)

A base teórica foi importante para demonstrar que determinadas tecnologias reproduzem desigualdades, mas faltavam instrumentos norteadores que sistematizassem as recomendações que apareciam de forma dispersa nas pesquisas. “Muitas delas (pesquisas) permaneceram concentradas em identificar vieses e problemas, sem traduzir esses princípios em orientações que pudessem ser incorporadas ao cotidiano de designers e desenvolvedores”, conta a professora Anna Beatriz Marques.

A proposta do Guia é ser um material não apenas para ser lido, mas que também possa acompanhar as decisões a serem tomadas ao longo de todo o desenvolvimento de um produto digital. A partir de suas orientações, pode-se considerar, por exemplo, se a equipe inclui perspectivas diferentes, se usuários participam ativamente do processo, se os testes contemplam uma população diversa e se a interface não reproduz pressupostos de gênero.

ORIENTAÇÕES QUE IMPACTAM FORA DAS TELAS

No Guia, as autoras explicam o que é IHC feminista e seus princípios e depois seguem para as indicações práticas. A partir de um mapeamento do que a literatura científica já oferecia, identificaram recomendações explícitas ou implícitas e as converteram em 15 orientações. Cada uma delas foi refinada com informações sobre sua definição, forma de implementação, benefícios e desafios na aplicação, bem como um exemplo prático relevante.

Avaliar e mitigar vieses, adotar estratégias de design inclusivo e realizar testes de usabilidade com grupos diversos são algumas das orientações apresentadas pelo Guia. Para as pesquisadoras, essas são as mais urgentes, pois permitem identificar problemas ainda durante o desenvolvimento, antes que atinjam milhares de usuários. “Quando incorporadas desde o início, também influenciam outras decisões e ajudam a transformar a cultura da equipe”, acrescenta Kellen Monteiro.

Em conjunto as orientações refutam uma ideia rotineira nos processos de criação, a do chamado “usuário padrão”, perfil que representa um usuário típico ou ideal, deixando de fora ou mal compreendidos outros perfis. Para as pesquisadoras, as diretrizes podem contribuir para interfaces mais inclusivas, acessíveis e adequadas às necessidades de grupos sub-representados, como mulheres, pessoas racializadas ou com deficiência, entre outros.

Avaliar e mitigar vieses, adotar estratégias de design inclusivo e realizar testes de usabilidade com grupos diversos são algumas das orientações apresentadas pelo Guia para interfaces mais adequadas (Foto: Magnific)

A percepção de que determinadas interfaces não contemplam todos os públicos aparece também na experiência de quem avaliou o Guia. Bacharel em Engenharia de Software e participante dos testes, Deusiane Kaylane conta que já se deparou com essa sensação como usuária. “Tem aplicativos que entro e sinto que eles não foram feitos pensando em mim como mulher”, afirma. Ela cita como exemplo jogos que oferecem apenas personagens masculinos ou não permitem alterar os pronomes de tratamento para o feminino. “De certa forma, traz para mim a sensação de que eu não sou o público-alvo daquilo.”

Um dos trabalhos analisados pelas autoras ajuda a mostrar o impacto de vieses e exclusões na vida fora das telas. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou diferenças significativas na pontuação de rastreio da depressão em mulheres e pessoas não-binárias que utilizaram a mesma aplicação com designs diferentes. Como a pontuação de instrumentos de triagem são usadas para o acesso a serviços de saúde mental, vieses podem ter consequências generalizadas para a saúde.

Além da prevenção contra estereótipos, discriminação e violência de gênero, outra preocupação da IHC Feminista é com a privacidade, autonomia e controle dos usuários sobre suas interações no que diz respeito a plataformas que coletam dados pessoais dos usuários sem que haja um consentimento significativamente esclarecido, especialmente em aplicativos de relacionamento ou de conteúdo adulto.

ENTRE A ACADEMIA E O MERCADO

O alerta de que a academia poderia trazer contribuições práticas para uma IHC mais igualitária surge também de uma crescente retomada do protagonismo das mulheres – pioneiras na programação de computadores e maioria na área até meados do século passado. Agora, ao ocuparem espaços como pesquisadoras, desenvolvedoras e responsáveis por decisões sobre produtos, elas passaram a questionar por que tantas tecnologias não reconheciam suas experiências, necessidades e preferências.

Na opinião das pesquisadoras, o distanciamento entre academia e mercado persiste porque investigar gênero e tecnologia exige conhecimentos interdisciplinares e evidências sobre como diferentes experiências sociais afetam a interação. Ana Beatriz Marques pontua que também existe relutância, em alguns espaços da Computação, à incorporação de perspectivas sociais e críticas. “Muitas vezes, questões de gênero são tratadas como distantes das decisões técnicas”, diz.

No mercado, elas reconhecem que há resistência de empresas e organizações em conciliar compromissos éticos e objetivos comerciais. “Enquanto a pesquisa aprofunda problemas sociais, o mercado costuma trabalhar com prazos curtos e prioridades comerciais”, observa Kellen Monteiro. Mas há também um argumento pragmático: incorporar inclusão desde a concepção pode custar menos do que tentar corrigir um sistema excludente depois que ele já está em produção ou funcionando.

Fotografias das professoras Anna Beatriz Marques e Valéria Pinheiro
Anna Beatriz Marques e Valéria Pinheiro: o distanciamento entre academia e mercado persiste porque investigar gênero e tecnologia exige conhecimentos interdisciplinares e evidências sobre como experiências sociais afetam a interação (Foto: Victor Braga/UFC)

Apesar disso, os participantes demonstraram compreender a importância do propósito do Guia, afirmando ser necessário reconhecer diferentes identidades e evitar a discriminação em interfaces. “Não identificamos resistência direta ao termo ‘feminista’, mas observamos pouco conhecimento prévio sobre IHC Feminista. Isso reforça a necessidade de disseminar o tema e oferecer materiais acessíveis para sua aplicação”, comenta Geslâne Sena.

Depois da experiência, Deusiane afirma que utilizaria as diretrizes em projetos reais. Para explicar a função que enxerga no material, ela faz uma analogia com uma prática já consolidada no desenvolvimento de software: “Assim como criamos rotinas para testar o código e evitar falhas no sistema, o Guia deve ser usado pelas equipes para evitar falhas de inclusão”.

PRÓXIMAS ETAPAS DA PESQUISA

O artigo “From Mapping to Practice: A Guide and Evaluation of Feminist HCI Guidelines” (em português, “Do Mapeamento à Prática: Um Guia e Avaliação de Diretrizes de IHC Feminista”), com os resultados da pesquisa que deu origem ao Guia, foi publicado no Journal on Interactive Systems. A pesquisa foi financiada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) e pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

Na próxima etapa da pesquisa as autoras pretendem incorporar as diretrizes a projetos de software reais e acompanhar sua utilização desde a identificação dos requisitos até a criação e avaliação das interfaces. A ideia é observar quais recomendações são mais fáceis de adotar, quais precisam de adaptações e, sobretudo, se elas efetivamente modificam as decisões tomadas pelas equipes.

Em um momento posterior, produtos e processos poderão ser comparados antes e depois da adoção do Guia, investigando se houve redução de estereótipos e vieses e mudanças em indicadores como inclusão, acessibilidade, engajamento e experiência de uso. “Essa aplicação em projetos reais será fundamental para amadurecer o Guia e verificar sua contribuição concreta para aproximar a IHC Feminista da prática profissional”, afirma a professora Valéria Pinheiro.

A ambição não é criar tecnologias exclusivas para mulheres ou trocar um viés por outro, mas reconhecer diferentes experiências, questionar desigualdades e ampliar a participação das pessoas afetadas pelas decisões de design. O Guia funciona mais como um conjunto de procedimentos que tornam perceptíveis e questionáveis decisões que costumam ficar escondidas sob aparência de neutralidade. “É uma perspectiva que beneficia a qualidade da tecnologia porque ajuda a revelar necessidades e consequências que poderiam permanecer invisíveis”, afirmam.

Fontes: Anna Beatriz Marques – e-mail: beatriz.marques@ufc.br / Valéria Maria da Silva Pinheiro – e-mail: valeria.pinheiro@ufc.br, professoras da UFC no Campus de Russas 

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Mônica Lucas 16 de setembro de 2026