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Conheça o Grupo Santana: no Ceará, um dos principais sítios paleontológicos do mundo

A pesquisadora Olga Alcântara explica como se constitui o Gupo Santana, uma das principais janelas para entender o período Cretáceo

Por Olga Alcântara*

A sequência estratigráfica da bacia do Araripe é composta por nove formações geológicas. Apesar de os fósseis ocorrerem em outras formações da bacia do Araripe, é no Grupo Santana que se reconhece a abundância fossilífera, representada principalmente pelas Formações Crato, Ipubi e Romualdo.  

Na Formação Crato, unidade geológica bastante conhecida pela extração da Pedra Cariri, comumente utilizada na construção civil para produção de pisos, encontra-se uma vasta diversidade fossilífera de vertebrados. Podemos destacar a grande abundância de pequenos peixes, principalmente do gênero Dastilbe, que são conhecidos popularmente como as “piabinhas” do paleolago do Araripe.

Além deles, encontra-se uma grande diversidade de invertebrados, como os artrópodes, com representantes dos insetos ensíferos (grilos), anisópteros (libélulas), blatópteros (baratas) e himenópteros (vespas e formigas) e camarões do gênero Beurlenia, além de fragmentos de vegetais de samambaias do gênero Ruffordia e de coníferas do gênero Brachyphyllum

Nas lâminas de calcário laminado, são comuns restos de artrópodes e também de vertebrados fósseis como anuros, quelônios, crocodilomorfos, pterossauros e aves.  

Os fósseis dessa formação são extremamente abundantes e normalmente com tecidos moles preservados. Geralmente esses fósseis são comprimidos ou em forma de impressão, sendo raro fósseis tridimensionais. Provavelmente, essa formação é resultado da deposição em um ou mais lagos com água dura (com alto teor de minerais) e uma haloclina (camada de água com acentuada variação de salinidade de acordo com a profundidade) bem definida.

A Formação Ipubi é composta principalmente pelos depósitos de gipsita e anidrita, intercalados por folhelhos escuros. Nessa unidade também é encontrada vasta quantidade de restos de peixes, vegetais lenhosos, conchostráceos, ostracodes e coprólitos (fezes) fossilizados, e camarões carídeos.

Já a Formação Romualdo é constituída por folhelhos cinza-esverdeados com níveis de concreções carbonáticas. As concreções são de calcário micrítico, em muitas delas são encontrados fósseis, a maioria coprólitos, além dos peixes popularmente conhecidos como  “pedras de peixes de Santana do Cariri”. Nos níveis de folhelhos também são encontradas concreções de peixes e camarões. 

Seu ambiente de deposição é interpretado como sendo lagunar costeiro, com periódicas incursões marinhas, como sugere a ocorrência de equinoides (bolachas-do-mar). São encontrados também restos de ostracodes, conchostráceos, decápodas com representantes fósseis de camarões e caranguejos, pterossauros, quelônios, crocodilomorfos, dinossauros e plantas. Juntamente com a Formação Crato, é considerada um Konservat Lagerstätte, ou seja, estrato deposicional com fósseis em excelente estado de preservação. 

Olga Alcântara é pesquisadora, egressa do Programa de Pós-Graduação em Geologia da UFC.