Crianças observando cartas com o nome Poço da Draga no chão (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)
Com o projeto de extensão Fotobiografias, os moradores do Poço da Draga param, sentam, olham fotografias e acessam memórias pessoais em um outro ritmo (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)
Sociedade e Cultura

A cidade que emerge de fotografias e narrativas

Grupo Rastros Urbanos desenvolve projeto de extensão na comunidade Poço da Draga e traz à tona outro olhar sobre a cidade a partir das histórias dos próprios moradores

Uma Fortaleza narrada pelos álbuns de fotografias. Histórias de vida que se unem à própria história da cidade. Com o projeto de extensão Fotobiografias: uma Fortaleza Que Se Conta em Acervos Fotográficos Pessoais, o grupo de estudos e pesquisas Rastros Urbanos, vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará, atua desde 2016 na comunidade do Poço da Draga, na Praia de Iracema, em Fortaleza.

“Tem uma outra cidade que se revela nessas imagens, e, além disso, uma outra cidade se monta a partir das narrativas dos moradores quando eles retiram essas fotografias das suas caixas, dos seus álbuns, para que nós façamos a leitura daquilo que eles querem nos dizer”, explica a coordenadora do Rastros, Profª Cristina Maria da Silva, do Departamento de Ciências Sociais, que está à frente do grupo ao lado do vice-coordenador, Prof. Tiago Vieira Cavalcante, do Departamento de Geografia.

Um dos resultados do projeto no Poço da Draga foi uma publicação lançada no dia 22 de agosto, durante a Bienal do Livro do Ceará de 2019, cujo tema foi “A cidade e os livros”. Trata-se de um dos álbuns de Ivoneide Gois, moradora da comunidade, intitulado Territórios da memória – Poço da Draga. Nele, estão os chamados santinhos – folhetos impressos com a foto e um texto de homenagem – de todos os habitantes já falecidos. “Nós tivemos a presença de vários moradores, amigos da Ivoneide, e eles estavam de alguma maneira tendo uma restituição desse lugar deles na cidade”, avalia a professora.

Para a realização das atividades, o grupo, atualmente formado por sete integrantes, precisa ganhar a confiança dos habitantes, os quais geralmente recebem os representantes do projeto no meio da rotina familiar.

Pesquisadora e criança desenhando no mapa da cidade Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)
Entre as atividades realizadas pelo Grupo Rastros Urbanos, ocorreram atividades com as crianças, que desenharam os lugares preferidos do bairro no mapa de Fortaleza (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)

“É um trabalho lento, que nos pede um outro tempo, que se opõe a essa aceleração da rotina contemporânea. É um tempo de parar, de sentar, de olhar a fotografia, de silêncio, no qual aquela pessoa olha para a fotografia, lembra várias outras coisas e começa a buscar outros álbuns, outras imagens”, revela Cristina.

A pesquisadora chama a atenção para autores como o francês Michel de Certeau (1925-1986), que pensa a cidade como uma invenção do cotidiano, com cada território podendo ter uma leitura diferente dessa mesma cidade. “Também são importantes para nós os estudiosos das narrativas, como Walter Benjamin, que discute a noção de rastro, a própria ideia do narrador: quem é o narrador? E aí trazendo para nossa investigação e nosso projeto de extensão: quem é o narrador da cidade? Quem tem legitimidade para narrar uma cidade?”, questiona.

Álbuns de fotografias empilhados (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)
A partir dos álbuns de fotografias dos moradores, são contadas não apenas histórias de vidas, mas também é revelada a própria biografia da cidade (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)

Segundo a coordenadora do Rastros, a hipótese é que essa legitimidade pertence ao próprio habitante da cidade, pois é ele o maior conhecedor do lugar onde vive. A professora cita ainda a importância, para o grupo, da contribuição teórica da pesquisadora Fabiana Bruno, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que discute como, a partir das fotografias, podem ser pensadas as biografias.

“Portanto, quando nós pensamos em fotobiografias, está implícita a ideia de que não é só a biografia dos habitantes da cidade, mas também a própria biografia da cidade que nós estamos querendo montar e compreender”, revela.

PERTENCIMENTO

O Poço da Draga é um dos territórios “esquecidos” de Fortaleza, de acordo com Cristina, mas os habitantes guardam uma memória muito viva da transformação da Praia de Iracema ao longo do tempo: o surgimento de prédios e da dinâmica urbana em torno da comunidade.

“Ao contrário do que se pensa, eles não chegaram depois, eles chegaram primeiro”, ressalta a professora. São pescadores; artesãos (tanto os que constroem seus barcos como os produtores de trabalhos manuais para complemento da renda, atividade lúdica e ainda ensino do ofício); vendedores ambulantes; guardadores de carros; artistas; produtores audiovisuais; e uma diversidade de pessoas ligadas à história da formação da cidade. Para a coordenadora do Rastros, a participação na Bienal foi uma maneira de afirmar o sentimento de pertencimento da comunidade, no que diz respeito ao direito de integrar os eventos promovidos em Fortaleza.

Outras ações propostas pelo projeto Fotobiografias ocorrem durante rodas de conversa e aniversários da comunidade. Tudo com a colaboração das lideranças comunitárias, ouvindo as demandas do bairro. Em uma dessas ocasiões, foi montada uma exposição com imagens dos habitantes nos arredores do Pavilhão do Poço da Draga.

“O vento batia muito forte. Então, as fotografias pareciam flutuar”, relembra Cristina. Para a coordenadora, são momentos de partilha nos quais, por vezes, as pessoas reconhecem imagens de sua infância nos acervos de vizinhos, favorecendo a criação de laços.

Outra intervenção no Poço ocorreu na festa do Dia das Crianças de 2018. O grupo montou uma espécie de jogo da memória com fotografias em pares para serem encontradas pelas crianças. Ao mesmo tempo, em outra atividade, elas desenhavam os lugares preferidos do bairro no mapa da cidade. “Foi bem interessante, porque elas têm uma percepção muito clara de onde estão”, relembra.

Pesquisadores ao lado da autora Ivoneide Gois (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)
Ivoneide Gois (ao centro), moradora do Poço da Draga, lançou, durante a Bienal do Livro deste ano, a publicação “Territórios da memória”, ao lado de integrantes do projeto de extensão Fotobiografias, como a professora Cristina Maria (ao lado de Ivoneide), Leonardo Costa, Felipe Braga e Alana Brandão (Foto: Arquivo pessoal/ Grupo Rastros Urbanos)

A ideia do projeto de extensão, de acordo com Cristina, é ir para outros bairros, além do Poço da Draga. Para isso, ela convida mais alunos e pesquisadores a participar. “A demanda é muito grande, porque tem todo o trabalho de visita, de coleta e tratamento dessas imagens, um vínculo com essa comunidade, porque nosso interesse não é simplesmente pegar essas fotografias. A gente de alguma forma quer devolver essas imagens para os moradores”, explica.

Em 2019, as reuniões do grupo Rastros têm sido realizadas mensalmente no Departamento de Ciências Sociais. As leituras envolvem questões sobre cotidiano, cidade e fotografia. Neste ano, particularmente, as discussões se pautaram em torno das reflexões sobre patrimônio.

SERVIÇO

Para saber mais sobre o grupo, acesse o blog e o Facebook do Rastros Urbanos. Quem tem interesse em adquirir o livro Territórios da memória – Poço da Draga deve enviar e-mail para rastrosufc@gmail.com.

Fonte: Profª Cristina Maria da Silva, coordenadora do Rastros e do projeto de extensão Fotobiografias: uma Fortaleza Que Se Conta em Acervos Fotográficos Pessoais – e-mail: crimasbr@yahoo.com.br