Patrimônio cultural e gastronômico do Ceará desde 2017, o cuscuz é um verdadeiro símbolo de identidade do Nordeste. Além da praticidade no preparo e nas combinações, o alimento destaca-se pelo seu valor nutricional, fator que levou à crença na cultura popular de que ele seria capaz de aumentar a produção de leite em lactantes. Esse conhecimento empírico foi testado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará em Sobral, que chegaram à conclusão de que o cuscuz é, sim, capaz de impactar positivamente no ganho de peso dos bebês.
“Na prática pediátrica nossa era bem comum mães que amamentavam seus filhos relatarem aumento na produção de leite materno quando consumiam cuscuz. Diante disso veio a inquietação de provar esse fato à luz da ciência com objetividade. Como não podíamos medir a quantidade de leite produzida pela mãe, resolvemos medir o resultado daquela amamentação: o ganho de peso das crianças”, comenta o professor Plácido Arcanjo, que orientou o estudo.
Os resultados mostraram que a ingestão de cuscuz pelas mães que estavam amamentando foi capaz de gerar um ganho de peso 37% maior nas crianças, aumento considerado significativo pelos estudiosos. O trabalho foi desenvolvido pela enfermeira Dyanna Linhares, no Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família do Campus Sobral.
SAÚDE DA FAMÍLIA
Fizeram parte do estudo 30 mulheres em amamentação exclusiva, vinculadas aos Centros de Saúde da Família (CSF) do município: 15 mães do CSF Bonfim, oito do CSF Jordão, quatro do CSF Sinhá Sabóia e três do CSF Patos, com bebês a termo (não prematuros), saudáveis e com 30 a 120 dias de vida. A faixa etária das mães ia de 18 a 40 anos, sendo um dos critérios de participação que elas não apresentassem dificuldades em amamentar e que não tivessem qualquer condição de saúde que pudesse interferir nesse processo.
Após a triagem, as voluntárias foram divididas em dois grupos de 15, sendo as mães e os bebês acompanhados por um período de 40 dias. No primeiro grupo, foi orientado que cada mãe consumisse diariamente 70 gramas de cuscuz por 20 dias e depois passasse mais 20 dias sem ingerir o alimento. No segundo, as mães iniciaram o estudo sem inserir o cuscuz na dieta, passando a usá-lo após 20 dias, invertendo assim a ordem do primeiro grupo.
Para garantir a ingestão em quantidades corretas ao estudo, a equipe de pesquisadores doou às mães as cuscuzeiras e o cuscuz, que foram oferecidos em saquinhos individualizados com uma dose diária. As crianças dos dois grupos foram pesadas antes de as mães iniciarem a dieta com cuscuz, após os 20 dias de uso diário e ao fim dos 20 dias sem consumi-lo.
Ao final do experimento, os estudiosos comprovaram a premissa do saber popular: o cuscuz trazia de fato benefícios no processo de amamentação. Uma proporção de 60% das mães relataram um aumento acentuado na produção de leite no período em que consumiam o cuscuz, enquanto 30% destacaram um aumento moderado. A suplementação com cuscuz mostrou-se, portanto, uma estratégia viável para aumentar tanto a produção de leite quanto o ganho de peso dos bebês.
“As equipes da Estratégia Saúde da Família podem utilizar esse conhecimento na educação em saúde, orientando as lactantes sobre a importância da alimentação adequada durante a amamentação e valorizando alimentos regionais que façam sentido dentro da realidade sociocultural da população”, afirma Dyanna Linhares.
GANHO DE PESO
As crianças das mães lactantes que usavam cuscuz, tiveram um aumento de peso de cerca de 33 gramas por dia, totalizando 1.011 por mês. Quando essas mesmas mães não estavam ingerindo o alimento, o aumento de peso das crianças foi de em torno 24 gramas por dia, ou 738 gramas por mês.

“Acreditamos que isso possa estar relacionado ao fato de o cuscuz ser um alimento energético, rico em carboidratos, contribuindo para um maior aporte calórico materno durante a lactação, período em que a demanda energética da mulher está aumentada. Além disso, o cuscuz é um alimento presente na alimentação nordestina, de fácil acesso, boa aceitação e consumo frequente entre as lactantes”, revela a pesquisadora.
SABERES CIENTÍFICO E POPULAR
Segundo os cientistas, uma das vantagens do uso do cuscuz para apoiar o aleitamento materno exclusivo é o fato de o prato ser culturalmente aceito e integrar a rotina alimentar das famílias. De acordo com Dyanna Linhares, a pesquisa mostra que, em abordagens voltadas à saúde da família, o conhecimento empírico e o científico podem ser, sim, ser aliados.
“Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi justamente partir de um saber popular já difundido entre muitas mulheres nordestinas, de que o cuscuz ‘aumenta o leite’, e investigar cientificamente essa percepção. Acredito que os saberes populares precisam ser escutados e respeitados pelos pesquisadores e profissionais de saúde, pois muitas vezes refletem experiências construídas ao longo de gerações. A ciência tem um papel importante em investigar essas práticas, validar o que demonstra benefício e orientar de forma segura a população”.
Salienta o professor Plácido Arcanjo que a tradição popular tem sido alvo de outros estudos da Pós-Graduação em Saúde da Família em Sobral. “O conhecimento tradicional tem grande importância, mas deve ser avaliado à luz da ciência. Essa integração do saber popular com a ciência deve ser estimulada: já avaliamos a rapadura, que por sua grande concentração de ferro foi capaz de diminuir a anemia em crianças quando usada como adoçante em suco, e avaliamos também o uso da panela de ferro em escolas para diminuir a anemia de crianças, encontrando bons resultados. Fizemos também um estudo avaliando o xarope de chambá no combate à tosse das crianças, com resultados surpreendentes”.
O estudo “Effects of couscous supplementation on breast milk production and infant weight gain: a crossover clinical trial” pode ser conferido na edição de Fevereiro do Journal of Tropical Pediatrics, publicado pela Oxford University Press.
Fontes: Francisco Placido Arcanjo, professor Titular do Campus da UFC em Sobral – e-mail: franciscoplacidoarcanjo@gmail.com; Dyanna Linhares, egressa do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família do Campus Sobral – e-mail: diannakelly@outlook.com
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