O Brasil hoje é um dos maiores produtores de proteína animal no mundo, sendo o líder na carne bovina, o segundo na de frango, e o quarto lugar na de suínos. Segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a avicultura e a suinocultura nacionais devem atingir recordes em 2026, impulsionando um novo marco da série histórica, com a produção de carne de frango chegando a 15 milhões de toneladas e a de suínos superando as 5 milhões de toneladas.
Esse alto desempenho da pecuária brasileira traz consigo um desafio: as perdas ocorridas no transporte de animais. Dados apontam que a porcentagem de mortes durante essa etapa do manejo pré-abate ficam em torno de 2 a 5%. Por essa razão, o transporte é considerado um dos pontos críticos do ciclo produtivo da pecuária de corte no mundo, tanto pelos prejuízos econômicos quanto em relação aos impactos no campo do bem-estar animal.
Um invento desenvolvido na Universidade Federal do Ceará tem como objetivo melhorar as condições de ambiência e bem-estar dos animais, reduzindo assim as mortes por estresse térmico: o aerofólio CirculAR, sistema de arrefecimento da carga por meio da circulação de ar. Acessível, de fácil instalação e manuseio, a tecnologia direciona o fluxo de vento para o interior da carga durante o movimento do caminhão no transporte de animais vivos.
TECNOLOGIA
O CirculAr é composto por um defletor de ar com ângulo de 20º, que direciona o fluxo de vento para o interior da carga, e uma placa de fixação para a base de suporte da cabine, que poderá ser convertida em um aerofólio convencional para o veículo quando não houver transporte de animais. O dispositivo é fabricado com o polímero Acrilonitrila Butadieno Estireno (ABS), um termoplástico com alta resistência ao impacto e boa estabilidade térmica.
A tecnologia recebeu carta-patente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em novembro de 2025 e tem como inventor principal José Antonio Delfino Barbosa Filho, docente do Departamento de Engenharia Agrícola da UFC e coordenador do Núcleo de Estudos em Ambiência Agrícola e Bem-Estar Animal (NEAMBE). Segundo o pesquisador, o CirculAr é resultado de uma linha de estudos que vem sendo desenvolvida no Centro de Ciências Agrárias há mais de uma década na área de mecanismos de arrefecimento da carga para transporte de animais.
“Esse invento faz parte de um conjunto de patentes que temos desenvolvido para melhorar o bem-estar dos animais durante o transporte. Essa é a segunda carta patente outorgada, sendo a primeira, de 2016, dedicada a um sistema de aeração para o transporte de aves. Seguimos celebrando estas conquistas e esperamos que em breve outros pedidos de patente possam nos ser outorgados, como por exemplo a proposta que temos de um novo modelo de caixa para o transporte de aves vivas”, afirma José Delfino.
Para o desenvolvimento do CirculAR, fizeram também parte da equipe os pesquisadores Nítalo André Farias Machado e Daniel Gurgel Pinheiro. Os testes foram realizados por meio de ensaios em modelos de escala reduzida em túnel de vento e de simulação computacional, quando a proposta com melhor desempenho foi selecionada. Apesar de ser voltado para o transporte de aves e suínos, o equipamento pode ser utilizado para o transporte de qualquer animal de produção. Destaca José Delfino que a equipe iniciou também estudos para o uso da tecnologia no transporte de pets, como cães e gatos.
BEM-ESTAR ANIMAL
No campo das diretrizes internacionais, a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) estabelece princípios quanto às condições que os animais devem vivenciar sob controle humano, com a ausência do estresse térmico e do desconforto físico integrando as recomendações. Em sintonia com esses preceitos, o manejo animal atento às questões de bem-estar e o abate humanitário têm sido temas de crescente interesse tanto para consumidores quanto para produtores. Aos pecuaristas, além das mortes no transporte, o estresse resultante de más condições pode acarretar em uma pior qualidade da carne e perda de certificações. Para os consumidores, o sofrimento durante a criação animal configura cada vez mais um elemento relevante na hora da compra.

Comenta o professor José Delfino que, além do circular, a equipe do NEAMBE vem estudando um novo modelo de caixa para o transporte de aves vivas (Foto: Viktor Braga / UFC)
Vale destacar que aves e suínos são animais sensíveis ao calor. A faixa de conforto térmico do frango de corte vai de 18 a 24 graus Celsius e a de suínos de 12 a 18 graus. Ao contrário dos humanos, as aves não conseguem transpirar e fazem a regulação térmica através do aumento da frequência respiratória. Os suínos, por sua vez, possuem poucas glândulas sudoríparas funcionais e usam a ofegação como estratégia de dissipação do calor.
Desse modo, a tecnologia desenvolvida na UFC, que visa amenizar os efeitos do estresse térmico durante o transporte, atende às tendências correntes quando se trata de pecuária sem sofrimento. “Do ponto de vista prático, o objetivo principal da invenção é evitar que os animais morram de calor ao longo do trajeto da viagem fazenda-abatedouro. No entanto, até que isso ocorra de fato, os animais passarão por um período de ‘sofrimento’ na tentativa de lidar com a situação de estresse térmico. Nesse ponto entra a importância da invenção para o bem-estar dos animais, ou seja, para não apenas evitar a perda (morte), mas também o sofrimento ao longo de todo o trajeto da viagem”, salienta o professor José Delfino.
Fonte: professor José Delfino, do Departamento de Engenharia Agrícola da UFC – email: zkdelfino@gmail.com
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