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Microfibras de tecidos e partículas de pneus são os microplásticos mais comuns nas águas pluviais de Fortaleza, segundo levantamento da UFC

Com foco de análise inédito na América do Sul, estudo relacionou a densidade populacional e os usos do solo com a quantidade e as características dos microplásticos encontrados nas águas de escoamento

Menores que cinco milímetros, mas de impacto gigantesco para os ecossistemas e a biodiversidade, os microplásticos são uma preocupação global. Os materiais já foram identificados no solo, em animais, rios, tecidos humanos e até mesmo em áreas isoladas do planeta, como o Monte Everest. No Ceará, a orla de Fortaleza é, segundo levantamentos, uma das regiões mais afetadas, com partículas que chegam ao mar por diversas fontes, advindas da água contaminada por lavagem de roupas feitas com fibras sintéticas, pela poeira de pneus no asfalto, pelo descarte inadequado de lixo, entre outras origens.

Um estudo do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal do Ceará (Prodema/UFC) analisou como o uso do solo na cidade de Fortaleza impacta no escoamento de microplásticos em águas pluviais e os cientistas chegaram ao seguinte resultado: quanto maior a densidade populacional ou a proporção de áreas de uso residencial, maior é a quantidade de microplásticos encontrada nas águas de escoamento. 

O trabalho, primeiro da América do Sul com esse foco de análise, teve como autora a cientista ambiental Victória Santos, sob orientação do professor Michael Viana e co-orientação do Prof. Tommaso Giarrizo. A pesquisa teve duração de dois anos, com as coletas das amostras feitas entre janeiro e abril (período chuvoso) de 2025, em bacias de drenagem de quatro áreas da capital cearense: Meireles, Praia do Futuro I, Barra do Ceará e Cais do Porto. As análises e o tratamento dos dados foram finalizados em 2026 e revelaram ainda que as microfibras se destacam dentre os tipos de microplásticos mais transportados à orla da cidade.

ANÁLISE

Para a coleta das amostras, os pesquisadores foram, em dias de chuva, na área de desembocadura das galerias pluviais, nos quatro pontos de Fortaleza selecionados. Em seguida, coletaram água imediatamente após 30 minutos do início da precipitação em uma garrafa de alumínio e levaram o material para tratamento e análise em laboratório, verificando a concentração e os tipos de microplásticos em cada área. 

Foram levadas em consideração na seleção dos bairros características de ocupação urbana, uso do solo e por aqueles estarem em áreas da cidade cujas bacias de drenagem possuem conexão com o ambiente de praia. “(Isso é) particularmente relevante para compreender o transporte de microplásticos do ambiente urbano para a região costeira. Além disso, são áreas importantes no aspecto social e econômico para Fortaleza e apresentam intensa utilização pela população e o turismo, como é o caso do Meireles e da Praia do Futuro”, comenta Victória Santos.

O trabalho, primeiro da América do Sul com esse foco de análise, teve como autora a cientista ambiental Victória Santos, sob orientação do professor Michael Barbosa (Foto: Gutierrez Reges / UFC)

Na interpretação dos achados foram utilizados dados espaciais para caracterizar as bacias de drenagem e as estimativas de densidade populacional a partir da plataforma Fortaleza em Mapas, do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), bem como informações fornecidas pelo Laboratório de Recursos Hídricos da UFC.

“Grande parte dos estudos sobre microplásticos historicamente olha para o poluente em si, onde ele está, em qual quantidade, de qual polímero é feito, sem necessariamente conectar esses resultados às características do território de onde ele saiu. A principal novidade do estudo é mostrar que a quantidade de microplásticos que a chuva carrega pelas ruas de Fortaleza até o mar não é igual em toda a cidade, mas varia de acordo com o jeito como cada bairro é ocupado”, explica o professor Michael Viana. 

Aponta ainda o pesquisador que bairros mais densamente povoados e com uso predominantemente residencial aportam mais microplásticos no sistema de drenagem do que áreas menos adensadas. “Ou seja, a poluição por microplásticos não é só um problema do oceano, ela nasce dentro da cidade, na relação entre a forma como ocupamos o território e o que escoa pelas galerias pluviais quando chove”, detalha.

PLÁSTICO NO DIA A DIA

Os microplásticos encontrados foram classificados conforme características que dão pistas sobre as suas origens: formas, cores, tamanhos e polímeros, tipos de macromoléculas sintéticas presentes na fabricação de diversos plásticos. Segundo o estudo, os polímeros mais detectados foram o polietileno, o polipropileno e o tereftalato de polietileno, que são usados com frequência na fabricação de materiais usados cotidianamente, como sacolas, frascos, embalagens de alimentos, potes, fios e tecidos para roupas e até mesmo materiais hospitalares e automotivos.  

“Além disso, o polietileno e o polipropileno são polímeros de baixa densidade, o que faz com que apresentem maior facilidade para permanecer em suspensão e serem transportados pela água, dependendo das características da partícula e das condições do escoamento. Dessa forma, a presença desses polímeros também pode estar relacionada à sua ampla utilização e às características que favorecem seu transporte pelo sistema de drenagem urbana”, declara Victória Santos. 

Dentre os polímeros mais detectados estiveram o polietileno, o polipropileno e o tereftalato de polietileno, que são usados com frequência na fabricação de materiais usados cotidianamente, como sacolas, frascos, embalagens de alimentos e tecidos para roupas (Foto: Acervo dos pesquisadores)

As microfibras foram o tipo de partícula mais encontrada pelo estudo em geral, representando entre 34,7% e 57,9% do total. Os materiais utilizados nos tecidos predominaram no trecho residencial da Barra do Ceará e nas regiões do Cais do Porto e da Praia do Futuro, chegando, nessa última, à proporção de quase 58%. 

“Nós hipotetizamos que a presença de fibras em todas as áreas estudadas pode estar relacionada à deposição das partículas durante os eventos de chuva, já que as fibras estão entre as formas mais frequentemente encontradas nesse tipo de processo. Portanto, mesmo em uma área com menor densidade de ocupação urbana, como a Praia do Futuro, as fibras podem estar presentes devido à sua ampla distribuição no ambiente e à possibilidade de serem transportadas e depositadas pela chuva”, afirma a pesquisadora.

Para Michael Viana, o predomínio de microfibras nas águas pluviais da cidade aponta também outros fatores como a grande presença de ligações clandestinas de esgoto no sistema de drenagem urbana em Fortaleza e a origem da poluição estar associada a hábitos de consumo. “Encontramos nessas fibras pigmentos como o azul índigo, associado ao tingimento de jeans, e a ftalocianina de cobre, usados amplamente na indústria têxtil e de plásticos, o que reforça a hipótese de origem têxtil e de descarte de resíduos domésticos e ajuda a apontar, ainda que indiretamente, para onde devem se voltar as ações de prevenção e mitigação”.

A pesquisa frisou também que entre as mais encontradas estiveram as partículas de borracha, indo de 17,3% a 44,9%, com destaque para o Meireles, e também os fragmentos – derivados de resíduos plásticos descartados de forma inadequada -, de 12,4% a 17,9%. Para os estudiosos, a origem das partículas de borracha detectadas na área nobre da Capital pode pode estar associada ao desgaste de pneus de veículos automotivos e meios de transporte individuais, como bicicletas e patinetes. 

Um resultado que chamou atenção dos pesquisadores foi o baixo índice de microplásticos no Cais do Porto. Devido ao fluxo de transportes de mercadorias, regiões portuárias e indústrias costumam concentrar grandes quantidades de microplásticos, o que não ocorreu nesse trecho da Capital.

“Esse resultado pode sugerir que a presença e a quantidade de microplásticos não estão necessariamente relacionadas apenas à existência de atividades portuárias ou industriais, mas podem também estar associadas ao tipo de atividade desenvolvida, às práticas de gestão de resíduos e às características específicas de cada região. Nesse sentido, são necessários estudos que considerem diferentes tipos de atividades industriais e suas características operacionais, de modo a compreender melhor a influência desses fatores na ocorrência e na quantidade de microplásticos”, avalia a pesquisadora.

 “Isso reforça que não basta classificar uma área como ‘residencial’ ou ‘industrial’ é preciso entender a intensidade e o tipo de ocupação e de atividade humana ali presentes. Pensar a cidade como parte da equação, portanto, é o que permite transformar dados sobre poluição em estratégias de gestão urbana e ambiental mais direcionadas e eficazes”, reitera o professor Michael Viana.

LEVANTAMENTO INÉDITO

O estudo, publicado na edição de agosto do periódico internacional Water, Air & Soil Pollution, contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), do Departamento de Física e do professor Iran Lima, do Laboratório de Recursos Hídricos (LRH) da UFC. O trabalho faz parte de uma linha de pesquisa desenvolvida no Laboratório de Efluentes e Qualidade de Água (EQUAL), do Labomar, que tem como foco estudar a ocorrência dos microplásticos nas diferentes matrizes ambientais (água, sedimento, ar, organismos aquáticos) e os riscos sobre o organismo de animais e humanos.

Para os pesquisadores, o predomínio de microfibras nas águas pluviais da cidade aponta também outros fatores como a grande presença de ligações clandestinas de esgoto no sistema de drenagem urbana em Fortaleza (Foto: Acervo dos pesquisadores)

Salientam os pesquisadores que a pesquisa responde a uma lacuna de trabalhos no sul Global acerca da influência das características dos ambientes urbanos e o transporte de microplásticos para o mar. “Isso é relevante porque a maior parte da produção científica sobre esse tema ainda está concentrada em países de renda alta, e o Brasil e outros países do Sul Global seguem sub-representados. Assim, o estudo ajuda a preencher essa lacuna e, ao mesmo tempo, oferece um ponto de partida concreto para pensar políticas de gestão de resíduos e de infraestrutura de drenagem voltadas para as áreas mais críticas da cidade”, avalia o professor Michael Viana. 

A pesquisa visa ainda acender o alerta sobre a necessidade de ações e políticas públicas para a redução do carreamento e contaminação por microplásticos em ambientes costeiros. “De maneira geral, a problemática dos microplásticos é um desafio global e complexo, cuja solução depende de ações integradas, principalmente porque existem múltiplas fontes e vias de entrada desses materiais no ambiente. Medidas mais simples e preventivas também continuam sendo fundamentais: a limpeza periódica das ruas e dos sistemas de drenagem, a fiscalização e a correção de ligações clandestinas de esgotos e a melhoria da gestão dos resíduos sólidos. Além disso, a participação da população, especialmente por meio do descarte adequado dos resíduos, é essencial”, defende Victória Santos.

Fonte: Vitória Santos, cientista ambiental – e-mail:  victtoriamariaa@alu.ufc.br / Michael Viana, docente e pesquisador do Labomar/UFC  – e-mail: vianamb@ufc.br

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Cristiane Pimentel 30 de setembro de 2026